"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

Cecília Meireles

domingo, 26 de setembro de 2010

Lembranças da vovó Florinda (RELATO)

Somos oito irmãos; o Gil, a Ivany, a Elaine, o Edilson, a Eliane, a Vânia, a Jane e eu: Eliezer, mas todos me chamam de Di. A diferença de idade entre nós era sempre de um ano, sendo que os últimos eram gêmeos. Morávamos na Zona Sul de São Paulo, na Vila Mariana, antes mesmo da construção da Avenida Vinte e Três de Maio ou mesmo do Parque do Ibirapuera e dos inúmeros arranha-céus que se espalham pela nossa cidade. Tudo ainda era muito verde.
Durante a semana brincávamos nos barrancos e andávamos de bicicleta nas ruas, que tinham pouquíssimo movimento. Porém, nos finais de semana a nossa paisagem para brincadeiras mudava totalmente, íamos para a chácara da nossa avó materna.
Nosso pai nos colocava em sua Perua Rural azul e íamos apertadinhos, para a casa da nossa avó materna. A viagem era longa, às vezes o carro quebrava outras vezes meu pai simplesmente parava para fazer compras nas vendas da estrada, onde trazia em saquinhos de papel balas, pirulitos, marias-moles, que comíamos felizes. Cantávamos e brincávamos durante toda a viagem, nem dava para sentir os solavancos do carro ao passar pelos inúmeros buracos.

Vovó Florinda morava em uma pequena casa no meio do mato, lá pelas bandas de Engenheiro Marcilac, extremo sul de São Paulo. Era uma casa de madeira, construída pelo meu pai, usando as árvores do terreno. Entre uma ripa e outra havia frestas por onde passava a luz do sol. Nas manhãs de verão, era lindo ver aqueles caminhos de poeira suspensos no ar; no inverno entrava um ventinho gelado, principalmente durante a noite. O chão era de barro vermelho batido, bem irregular e tudo tinha um forte cheiro de pato.

Quando o carro parava era aquela alegria, corríamos um para cada lado, somente os menores ficavam em volta de mamãe. Tínhamos nossos amigos que viviam por perto e também nossos primos que assim como nós, vez por outra vinham passar os finais de semana ou férias com a vovó. Então saíamos em disparada por dentro do milharal para encontrá-los. Depois de encontrar a turma toda, íamos a venda comprar doces e balas. Outras vezes comprávamos papel e linha, arrancávamos bambu para fazermos vareta, enquanto nossa mãe fazia a cola, com farinha de trigo e água. Fazíamos então nossas pipas e empinávamos aos gritos, nos campinhos da redondeza, até sermos cortados, aí então disparávamos ladeira abaixo atrás das nossas preciosas pipas. Mas, eram poucas as vezes que conseguíamos recuperá-las, quando perdíamos voltávamos chorando e xingando. Mas a raiva durava pouco, logo esquecíamos e arrumávamos outra coisa para fazer.

Subíamos nas árvores que eram muitas, lá tinha uma variedade de pés de frutas! Eram pés de orvalha, caqui, nêspera, manga, goiaba, cidra, figo. Comíamos os frutos lá em cima mesmo. Nem nos importávamos se estivessem verdes. Metíamos as mãos entre os galhos, pegávamos as frutas e enfiávamos na boca. As crianças menores que não conseguiam subir ficavam em baixo pedindo; somente quando estávamos saciados, é que jogávamos algumas frutas para elas. Brincávamos de Tarzan, pendurados nos galhos e nos cipós. Foi assim que um de nós quebrou o nariz; ele segurou o cipó com uma mão e com a outra foi abraçar uma árvore, caiu em cima de um tanque de cimento. Ficou com a cara inchada durante dias. Mas como sempre mamãe cuidou de tudo, ela sempre passava óleo em nossos machucados. Ela sempre curava nossos ferimentos com óleo.
Outra brincadeira gostosa era a dos carrinhos com rodas de madeira, feitos pelo meu pai; montávamos neles e descambávamos pelos barrancos, gritando.

Os pequenos que ainda não sabiam andar ficavam engatinhando pelo terreiro, enfiando os dedos nos buracos atrás de tatu-bolinha, era seu petisco preferido, eles pegavam aquelas bolinhas entre os dedos e colocavam na boca com tamanha rapidez, que nem sempre dava tempo de mamãe evitar, mesmo assim ela enfiava os dedos em suas bocas, para tirar o que sobrava do pobre bichinho, mas não adiantavam muito, logo eles pegavam outro e enfiavam na boca.
Minha avó era uma senhora baixinha de rosto moreno redondo, cujos cabelos escuros desciam até a cintura, não parava um só minuto, era muito ágil, fazia várias coisas ao mesmo tempo. Antes de o sol nascer, ela já estava de pé acendendo o fogo e ouvindo as notícias no seu radinho de pilha. Nunca fora à escola, mas sabia ler um pouco e conseguiu alfabetizar sozinha suas duas filhas.
O bicho de estimação de avó Florinda era um porco gordo, chamado Balofo. Um dia ela quase morreu do coração, porque meu irmão resolveu pregar um susto nela: apareceu gritando que o porco tinha fugido. Ela se desesperou, saiu da cozinha e desceu os degraus de madeira que dava para o quintal, correndo e gritando. A mulher quase enlouqueceu, mesmo ele dizendo que era mentira a pobre não conseguia se acalmar.

Na época de milho, comíamos milho cozido o dia todo. A sua cozinha ficava cheia de cascas, todos ajudavam a descascar as espigas, as mulheres ralavam, e então vovó fazia curau, pamonha, bolos de milho doces e salgados. Quando não tinha milho, a vovó nos fazia um tipo de biju de fubá; o que na verdade era apenas fubá com água e sal, ela colocava na frigideira para esquentar e pronto, era uma delícia.

Lá não tinha água encanada. Meu irmão mais velho ficava encarregado de tirar água da cisterna com um balde, para bebermos e para os afazeres domésticos.
Dormíamos todos juntos em colchões de palha confeccionados pela minha avó.
À noite não tinha janta, ela fazia uns pães no seu forno à lenha que eram maravilhosos e o cheiro tomava conta de toda a casa e também do quintal. Ela fazia uma porção de pães duros e solados, que nos eram oferecidos com manteiga caseira. Simplesmente maravilhosos!
Outra coisa que adorávamos era a paçoca de amendoim feita no pilão, ela também usava o pilão para fazer uma deliciosa farofa de carne seca.

No fundo do quintal antes de chegar à mata fechada, tinha um riacho, com um leito estreito e raso, forrado por pedras de vários tamanhos, suas águas eram bem claras, nós pulávamos lá dentro e ficávamos a tarde inteira nos refrescando. Era também o lugar de nosso banho. Minha mãe vinha com uma esponja e um pedaço de sabão de coco para nos esfregar. Nós fazíamos fila, ela ensaboava um a um; primeiro lavava as nossas cabeças, depois esfregava o nosso corpo, e por último as pernas e os pés, cada um dava um jeito de voltar para a água e se enxaguar, aí então continuávamos no rio até anoitecer, era muito divertido nosso banho coletivo.

Tudo era uma grande aventura, até mesmo quando precisávamos ir ao banheiro, que ficava lá fora no quintal. O banheiro era apenas uma casinha de madeira, com um buraco no chão coberto por caixotinho com um buraco no meio. O difícil era usá-lo à noite, porque não tinha luz, tínhamos que ir sempre em dois, pois tínhamos medo da escuridão, e nas noites escuras sem lua sempre levávamos uma vela.

Ainda não havia luz energia elétrica, dentro da casa tinha apenas a iluminação dos candeeiros e no quintal tínhamos a iluminação da natureza.
Quando anoitecia, nós nos juntávamos sob a Luz da lua no terreiro para sentarmos no chão e ouvir a vovó nos contar seus causos. Os que mais gostávamos eram de assombração; suas histórias eram maravilhosas dava muito medo, principalmente nos pequenos que às vezes até choravam. Nessa hora ela fitava a escuridão da mata como se lá tivesse algo horripilante, todos acompanhavam o seu olhar, de repente ela mudava a voz, fazia caretas e começava a contar suas histórias, tinha a do Bicho Papão, João Caneludo, Maria Mãe D’ água, Boi tá-tá, A cara de Cavalo. De quando em quando ela mudava de voz, arregalava os olhos, fazia outras caretas e continuava com a narrativa. Todas as histórias eram horripilantes, mas quando ela olhava para o céu e fazia a voz do Pássaro da história que tinha Cara de Cavalo, nosso corpo se arrepiava, parecia que víamos realmente atravessar o céu um pássaro grande, cantando com voz aguda e cara de cavalo. E aquela voz ficava muitos dias em nossas mentes.

Ela conhecia um monte de ervas, e também sabia fazer umas garrafadas que, eram chamadas de remédio. Quando ela resolvia olhar em nossos olhos, com certeza achava alguma doença, a principal eram os vermes.
Olhava e dava o diagnóstico:
-Esse menino está cheio de bichas! Amanhã antes do café, vou preparar uma boa garrafada para você beber.
Não havia como fugir, tinha que engolir aquele negócio amargo e fedido em jejum. E ela não sossegava, enquanto a garrafa não estivesse vazia, era um tal de apertar o nariz, segurar as mãos, enfim, só depois podíamos sair para correr descalços pelo quintal.
Somos muito unidos, até hoje. Mesmo casados e tendo cada um a sua família, nos encontramos frequentemente para relembrar a nossa infância e da nossa saudosa vovó Florinda.
Regina Gois

3 comentários:

  1. Rê!!! Apesar de ser a caçula, não ter vivido alguns desses relatos, adorei o conto!! Vc conduziu tudo de uma forma bem legal, parabéns! Bjo

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  2. Rê, acho que vovó só muda de endereço. Me vi em diversas situações aqui citadas. Lindo!!! Beijos

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  3. Muitíssimo rico em detalhes, divertido, real, emocionante!!!!! AMEI!!!!!!

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