"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

Cecília Meireles

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Loucuras de mamãe

-Lucas! Como está a sua mãe?

-Melhor, D. Rita, eu fui visita-lá ontem. Ela disse que estava muito cansada, e realmente parecia muitíssimo cansada. Tinha até olheiras profundas, eu lhe perguntei o porquê de tanto cansaço, achei que os enfermeiros estavam lhe dando muitas atividades físicas para aumentar a serotonina. Ela me respondeu que estava cansada, porque tivera muitos filhos, e que eles davam muito trabalho, principalmente à noite, quando miavam muito. A pobre estava toda arranhada de tanto se enfiar embaixo da cama, procurando seus "filhos".

-Como ela pode estar bem, falando estas besteiras?

- A senhora não viu o estado em que ela se encontrava antes da internação. Ficou uma semana embaixo da cama com a luz apagada, não saía nem para comer, a única pessoa que podia entrar no quarto sem correr risco de morte era a minha avó; meu pai, coitado, vivia todo mordido e unhado, toda vez que ele tentava se aproximar, ela atacava.

-Que pena! Desejo melhoras para ela.

-Obrigado! Agradeço muito a sua preocupação.

Eu já estava bastante acostumado com as frequentes perguntas, dos vizinhos, conhecidos e parentes; não me deixava nem um pouco constrangido, todos sabiam como era a vida de minha família. Quando minha mãe surtava; o que, não era raro, todos tomavam conhecimento e tentavam ajudar de alguma maneira.

Lembrei-me da vez em que ela pegou o carro de madrugada e foi embora. Não tínhamos outro carro para segui-la, somente no dia seguinte é que fomos atrás dela, com um carro emprestado do nosso vizinho. Procuramos em todos os cantos, casa de parentes, hospitais, cadeias, IML, e nada. Foi desesperador. Depois de uma semana, meu pai conseguiu encontrá-la numa praça qualquer da cidade, descalça, com as roupas imundas e rasgadas, os cabelos emplastados. Quando tentamos trazê-la para casa, ela se debateu, chutou, mordeu e se agarrou no banco da praça, foi preciso contar com a ajuda de várias pessoas para levá-la até o carro. No trajeto para casa, ela gritava, cuspia, babava e lambia o vidro do carro, que ficou todo melecado com a sujeira de suas mãos e rosto.

Chegando em casa, foi preciso duas pessoas para dar banho nela, nós a colocamos em baixo do chuveiro, só depois tiramos as suas roupas imundas, que foram direto para o lixo. Meu pai a segurava, enquanto a minha avó a lavava, aí então ela se acalmou e voltou a falar com alguma coerência.

O sabonete e o xampu tinham que ser passados na esponja, para que ela não comesse ou bebesse; por várias vezes enfiei o dedo em sua boca para tirar os pedaços de sabonete.

Quando ela resolvia cozinhar, era muito especial. Ela gostava de fazer bolos e pães, mas todos tinham de ficar de olho em todos os detalhes. Os pães saíam com ovos inteiros e os bolos salgados, com talheres no meio. Chegamos até a comer bolo de fubá salgado e com pimenta. Era uma loucura!

O fato mais grave de que me lembro, foi no aniversário de 35 anos de meu pai. Ele não gostava de festas, então resolvemos fazer um jantar surpresa. Minhas avós e minhas tias chegaram trazendo cada uma, um prato. Minha mãe quis ficar responsável pelas tortas e salgados. A mesa ficou linda. Os pratos foram colocados um a um, todos com uma aparência maravilhosa, só faltavam os assados de minha mãe. Meu pai chegou, e foi aquela surpresa.

Estávamos prontos para comer, brindamos e alguém lembrou que estava faltando à mamãe com os seus assados. Eu saí do meu lugar e fui até a cozinha ajudá-la. Chegando lá, vi que a bancada da pia estava repleta de assadeiras. Tinha também assadeiras no chão e em cima do fogão. Cheguei a contar doze pratos, com várias partes de carnes e aves assadas. O cheiro era inebriante, a aparência maravilhosa.

Ela estava muito contente com seu trabalho, enfeitara todos os pratos, com muita delicadeza e carinho, parecia uma criança em meio aos seus brinquedos. Comemos muito, e distribuímos para os vizinhos um pouco aquela fartura. Ninguém teve a preocupação de perguntar onde ela encontrou tantas espécies. Dias depois ouvimos boatos de sumiço de alguns animais da vizinhança. Foram encontrados esqueletos de bichos em nosso quintal, até os coelhos e os pombos de minha vizinha sumiram. Vi uns cartazes na padaria e nos postes do nosso bairro, de alguns animais desaparecidos, mas nunca pudemos provar nada, e muito menos perguntar para ela.

Mamãe sempre foi muito sensível e caridosa, nada era somente dela, sempre que tinha oportunidade de ajudar o próximo lá estava ela. Nossa geladeira tinha apenas o essencial para o dia, e nossos armários tinham trancas com chaves, como também os guarda-roupas e as sapateiras. E havia um motivo para isso. Quando alguém chegava batendo na porta e pedindo algo para comer, minha mãe dava tudo o que estava ao seu alcance; frutas, macarrão, arroz, óleo..., enchia as mãos, as sacolas e entregava. E ainda falava: - Espera aí que tem mais um pouquinho. Dava tudo o que tínhamos em casa. O mesmo acontecia com as roupas e os sapatos. Não podia ver uma pessoa passando frio ou com roupas surradas. Quando víamos, tínhamos que tirar da mão dela e esconder. Mesmo assim, ela não se conformava e ficava procurando pela casa algo que pudesse ser doado.

Eu estava acostumado com a minha vida em família, na verdade não conhecia outra. O que é ser normal ou ter uma família normal, quem sabe? Todos têm seus altos e baixos. Todos têm conflitos, só sei que tenho aprendido muita coisa sobre fé, amizade, compaixão e principalmente amor.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O órfão (CONTO)





O Órfão


A pequena mala na mão direita, com apenas algumas peças de roupas, dois pares de meias, um shorts, uma bermuda e uma camiseta que ganhara no último Natal. Seus amigos lhe invejavam.
-Como era sortudo! - todos comentavam. Ninguém era adotado com aquela idade. As pessoas procuravam sempre, bebês loiros de olhos claros, ele já passara dos oito anos, tinha a pele escura e um corpo bem mirrado.
Não se aguentava de felicidade, a respiração saía forçosa. Tinha medo que desse tudo errado, depois de tanto tempo sozinho, sonhando com aquele dia, dia de ir embora para sempre, de ter uma família de verdade, de ser filho de alguém. Lá no fundo da alma uma dúvida lhe atormentava. “E se eles se arrependerem, o que será de mim?”.
Já passara das dez da manhã, o horário combinado, mais uma vez ele olha pela veneziana entreaberta, e logo vê um carro parando na frente do prédio. O coração saltita, os olhos lacrimejam, já era possível sentir o cheirinho gostoso de aconchego.
Ela desce do carro e espera ansiosamente o marido. Ajeita os cabelos, segura firmemente na mão dele, sobe as escadarias quase a correr, com seus lindos olhos redondos brilhantes cheios de afeto, com todo o corpo a sorrir. Ele já estava na porta, pequeno demais para sua idade, mala no chão, braços abertos e lágrimas nos olhos. Ela ajoelhou-se em sua frente, abriu os braços e o abraçou fortemente. Ia finalmente conhecer a sua casa, ter uma família de verdade, ser amado.
Durante a viagem, sentou-se no banco de trás do carro ao lado dela, de mãos dadas. Pela janela passavam casas, prédios, ruas, pessoas, mas nada lhe despertava o interesse, queria olhar somente para ela, falar de sua alegria, dizer como estava feliz, mas as palavras não saiam então ele simplesmente sorria.
Entraram em uma rua estreita, de terra batida, foram até o final e logo avistaram, no meio de um grande terreno arborizado, um sobrado de tijolinhos à vista, com coberto de heras nas laterais. Logo na entrada havia uma varanda, com duas cadeiras de balanço e um banquinho de madeira.
Sua primeira casa de verdade, seu quarto, agora finalmente teria um quarto só seu.
Ele observava cada detalhe, com entusiasmo e encantamento; entraram pela sala com janelas acortinadas, andaram de mãos dadas até a longa escada de madeira, que ia dar no andar de cima. Lá em cima tinha vários quartos; somente dois estavam abertos e em uso, os outros só seriam abertos, quando recebessem visitas. Era a maneira mais fácil de manter tudo organizado, explicara ela. Seu quarto era ao lado do quarto do casal, isso o deixou feliz, pois nunca em sua vida dormira sozinho. Tudo tinha um cheirinho gostoso. O quarto era todo azul, os móveis brancos, havia um baú, uma cômoda com espelho, escrivaninha, criado mudo, uma poltrona com almofadas coloridas, um roupeiro com três portas e uma cama macia. Em cima da cômoda tinha um pequeno vaso com hortênsias. Era difícil de acreditar que tudo aquilo agora era dele. O roupeiro estava cheio de roupas do seu tamanho. Abriu as gavetas, tocou nas peças, delicadamente dobradas, peças de várias cores, havia espaços com sapatos e tênis, tudo novinho. Que sonho!
-Este é o seu quarto, gostou? Depois você poderá enfeitá-lo como achar melhor. As roupas estão no roupeiro e nas gavetas, veja!
Enquanto ele abria as portas, tocando levemente nas roupas, ela ia lhe apresentado o restante do quarto.
-É tudo muito lindo! Sinto-me até culpado de ter tanta coisa, não queria que vocês gastassem muito comigo, um teto para dormir e o amor de uma mãe já me bastava.
No fundo, ele tinha medo de não ser um bom filho, nunca pôde se lembrar dos pais, não sabia como se portar, não sabia ser filho, tinha receio de decepcioná-la.
O pai ficara em casa, não precisaria trabalhar, era sua folga. Ele era um homem alto, magro, reservado, tinha um rosto triste e um olhar distante. Enquanto a mãe providenciava o almoço, ele o pegou pela mão, e levou-o até o quintal, mostrou-lhe, a horta, o pomar, o galinheiro e os bichos que andavam soltos pelo gramado.
-Eu não gosto muito de bichos, eles fazem muita sujeira, estragam o gramado, dão um trabalho danado, mas Helena; sua mãe adora tudo quanto é bicho, se eu deixasse teríamos um zoológico. Veja o galinheiro, tem mais de trinta galinhas velhas, que não dão nem ovos, mas ela insiste em mantê-las vivas, não tem coragem de comê-las. Às vezes eu pego algumas e levo até a cidade e troco com uns amigos para poder renovar e dar mais espaço para as outras.
-Vocês têm cachorro?
-Sim, temos três, temos também gatos, estão por aí, deitados ou caçando algum bicho, vão aparecer mais tarde quando estiverem com fome. Vamos voltar o almoço já deve estar quase pronto, precisamos ajudar a pôr a mesa.
A copa era separada da cozinha por um balcão de mármore. Eduardo podia ver os dois, lado a lado na pia, ela cortando tomates e ele lavando as verduras que acabara de colher.
Pensou: Minha família, meu pai e minha mãe. Será que estou sonhando?
Olhando em cima do balcão, avistou uma toalha rendada, talheres, pratos e copos, então, colocou-se na ponta dos pés, puxou a toalha, e forrou a mesa. O pai, observando o seu interesse, cutucou o braço da esposa, que olhou para a criança e sorriu. Foi até o balcão, e entregou-lhe os talheres, os pratos, um a um. Ele pegava tudo e ia colocando na mesa com muito cuidado.
À noite, o pai sentou-se ao piano para tocar algumas músicas. A mãe levou-o ao quarto, mostrou-lhe a gaveta dos pijamas e das toalhas.
-Você consegue tomar banho sozinho?
-Sim! Ele respondeu, franzindo a sobrancelha, não conseguia imaginar alguém dando banho nele.
Ela ficou sentada na poltrona, com um livro aberto em cima do colo, quando ele voltou, ela colocou o livro sobre a cama e cheirou o seu cabelo, olhou as suas orelhas e as unhas.
E disse: - Muito bem! Estou gostando de ver, já sabe se cuidar. Agora vamos deitar? Posso ler uma história para você?
Ele não respondeu, apenas bateu palmas e abriu um lindo sorriso.
Ela sentou-se novamente, pegou o livro e começou a ler. Enquanto ele pensava: “tenho um pai tocando, na sala de estar e uma mãe aqui lendo para mim”. De repente sentiu um aperto no peito.
- Não quero dormir! - falou.
- O que houve? Você está cansado, precisa dormir.
Então, ele falou com a voz entrecortada e trêmula:
- Tenho medo de acordar e nada disso ser real.
- Eu juro que é real, eu estarei aqui amanhã, pode ter certeza. Você será muito feliz, eu lhe prometo.
- Tenho muito medo! Falou, com uma voz de cortar o coração.
- Me diga, quais são os seus medos?
- Tenho medo de ser chato, medo de fazer coisas erradas... Falar palavrão, de vocês se cansarem de mim e me devolverem. Lembrou-se, que conhecia alguns palavrões com a letra P. Um dia estava com outro colega brincando, e acabaram esbarrando em um moleque maior. O menino olhou para eles com uma cara muito feia e gritou:
- Filhos da Puta!
Ele levou um susto, pensou: Será que ele conhece a nossa mãe?
Então perguntou ao moleque:
- A nossa mãe é puta?
Tiveram que sair correndo, porque o moleque armou o braço para socá-los. Chegando ao orfanato, perguntou à freira o que a palavra queria dizer, ela respondeu que era uma palavra muito feia. Um palavrão! E fê-lo prometer, que não repetiria mais, aquela palavra. Lembrou-se bem, da irmã Clara falando, que os pais adotivos não gostavam de meninos que falavam palavrões.
- Eu juro que é real e eu estarei aqui amanhã. Se você fizer qualquer coisa errada, eu estarei aqui para lhe orientar, se você falar palavrões, eu também estarei pronta para lhe explicar o significado de cada palavra, combinado? Você será muito feliz, eu lhe prometo.
Acordou com o cantar dos galos, mas seu corpo ainda estava cansado e seu olho se recusou a abrir, pegou o travesseiro cobriu o rosto e voltou a dormir.
Já passava das nove horas, quando ouviu baterem na porta do seu quarto. Era o pai, sério como sempre, levantou as sobrancelhas, enrugou a testa e disse:
- Bom dia rapaz, vamos levantar! A mesa do café já está pronta.
A mãe o recebeu no pé da escada, com um largo sorriso e os braços abertos. Por um momento, ele esqueceu-se do seu tamanho e jogou-se em seu colo.
- Eu não disse que estaria aqui? - Disse ela olhando-o nos olhos. - Eu sempre estarei aqui!
Olhando a mesa farta, relembrou-se dos momentos que passara fome, andando nas ruas da cidade, onde às vezes rezava por um pedaço de pão, mesmo que fosse duro; aqueles que sobram do café da manhã e as pessoas deixam murchar nos armários, para depois, jogarem no lixo. Esse tempo passara. Sua vida agora era pura alegria.
Eduardo acordou com o som da sirene, como nas outras manhãs, tudo estava igual, o mesmo quarto cheio de beliches, com grandes manchas de umidade nas paredes e um forte cheiro de xixi dos pequenos. Não adiantava chorar.

Regina Góis de Mello

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O preguiçoso (CRÔNICA)


O Preguiçoso
Das Dores chega em casa e encontra o marido novamente estirado no sofá.
Pensa “A preguiça é uma desgraça!”
- Você continua dormindo, homem?
-Não, você acabou de me acordar. Estava até sonhando, mas você como sempre chegou para me atrapalhar.
-Minha mãe estava me perguntando se você já tinha arrumado emprego!
-O que ela tem a ver com a minha vida? Velha enxerida. Cruzes! Eu não devo nada a ninguém e sempre tem gente querendo cuidar da minha vida. Que saco!
-Ela se preocupa comigo, acha que trabalho demais enquanto você fica só em casa vendo TV, comendo e dormindo.
-Eu também já disse que você trabalha demais e nunca tem tempo para ficar comigo vendo TV, comendo e dormindo. Isso mina qualquer relação, viu?
-Se eu ficar em casa, quem vai trazer dinheiro para pagar as contas?
-É só não fazer contas, veja o meu caso; não trabalho e também não tenho contas.
-Como não tem contas, homem? Para de falar bobagem!
-O trabalho acaba com o homem, isso é certo! O trabalho mata. Veja o caso do meu avô e do meu pai.
-O que tinha o seu avô? Ele viveu até os 86 anos.
-Teria vivido mais se não trabalhasse.
-E seu pai, ainda esta vivo ou morreu? E você teve preguiça de me avisar?
-Tá morre não morre, com um pé na cova e o outro também, não reconhece mais ninguém, culpa do trabalho que destruiu o cérebro dele. Eu é que não caio nessa, quero chegar aos meus cento e trá-lá-lá, assim novinho, saudável, sem nenhuma ruga.
-Enquanto isso eu é que vou te alimentar e te vestir, não é?
-É uma escolha sua, querida, você gosta de trabalhar. Eu gosto de ficar aqui descansando e esperando você chegar.
-Esse papo não leva a nada. Boa noite, vou dormir, estou muito cansada.
-Boa noite, benzinho! Amanhã, antes de sair para trabalhar não se esqueça de deixar uns trocados para o meu cigarro.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A casa da vovó Pretinha (CONTO)


Eu sonhava com o final de semana, porque sabia que era o dia de ir para a casa da vovó. Lá sempre tinha um delicioso cheirinho adocicado de maçã com canela e tortas. Tudo era permitido: andar descalço, tomar banho frio de mangueira, correr pelo gramado, fazer bolinhos de barro e o melhor de tudo; jogar bola na rua com a molecada.
Ela vivia em uma casa pequenina, toda azul com janelas brancas, era a última casa de uma rua muito arborizada, com vários pés de ipês roxos; onde as casa eram separadas uma das outras por pequenas cercas. Tinha um grande gramado na frente bem verdinho e vários tuchos de Hortência em volta da cerca branca. A rua era bem estreita, não tinha asfalto ainda, era de barro batido e pedrinhas redondas, de um lado tinha as casinhas e do outro, muita vegetação que chamávamos de Chácara dos Padres, mas na verdade era uma fazenda de pesquisa do governo.
Quando o carro parava na frente do portão de sua casa, ela já estava nos esperando, como se adivinhasse o exato momento da nossa chegada. Sorria-nos com todo o corpo. Seus lábios grossos estavam sempre risonhos e quando sorria seus olhos grandes e pretos se fechavam... Eu achava muito lindo. Tinha os cabelos bem branquinhos como flocos de algodão, contrastavam com a sua pele bem escura. Vestia sempre um avental florido, porque estava constantemente cuidando de seus canteiros. Ela olhava-me sorrindo, estendia os braços compridos e acolhedores, eu corria e me jogava em seu colo macio, onde era recebido com muito carinho. Sentia o cheiro de seus cabelos, de seu rosto e de sua pele. Eu deitava e minha cabeça em seu ombro e apertava com toda a minha força, nada nem ninguém e tirava dali. Era um momento só nosso.
A mesa do lanche da tarde estava pronta, ela colocava os sucos, o pão quentinho o bolo de fubá com goiabada e o pão de queijo que era o meu preferido. Na casa da minha vovó não tinha refrigerantes, mas tinha cada suco! Na geladeira tinha umas garrafas coloridas com vários tipos de sucos. Eu me deliciava com todos aqueles sabores, um dia cheguei a tomar tanto, que até fiquei com dor de barriga. Lá sempre tinha biscoitos, bolos e doces, ela fazia cada bolo! A casa inteira ficava cheirando a tortas, que delícia! Eu já era meio gordinho, e no final de semana com certeza meu peso aumentava mais.
-Que cheiro bom! Eu dizia com o meu olhar de guloso.
Meu quarto que fora do meu pai, estava sempre arrumado e cheiroso. Meus amigos tinham mais ou menos a minha idade, viviam correndo de calção pelas ruas, atrás das pipas e dos cachorros, logo que meus pais partiam, eu tirava o tênis, aí sim eu também era um menino de rua.
Minha avó era uma professora aposentada que adorava crianças, por isso sua casa estava sempre cheia, toda tarde ela fazia a mesa do café e todos que a conheciam sabiam que era à hora de se deliciar com suas tortas, bolos, geléias , compotas e sucos. Nós comíamos, ríamos, brincávamos, éramos felizes.
Regina Gois

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A BELEZA (CONTO)


O que é belo?
Havia um vilarejo muito triste, cercada por grandes muralhas de pedras, e coberto por uma névoa muito fria e úmida. Onde os moradores viviam escondidos com vergonha de sua aparência. Mas não foi sempre assim, era um lugar muito ensolarado e alegre, com ruas arborizadas e floridas, casas coloridas e aconchegantes. Onde viviam pessoas saudáveis, bonitas e felizes, que sempre realizavam festas e comemoravam tudo; nas festas tinham comes e bebes, cantigas, danças e muita batucada. Era a festa da Sexta-Feira, festa da primavera, festa do verão, festa da lua cheia, festa da troca do dente, festa dos bichos, festas das frutas, do vinho, das flores, de todos os nascimentos e também das mortes.
Uma bruxa infeliz, havia ouvido falar na aldeia do povo feliz e quando soube que esse seria o prêmio para quem ganhasse o concurso de mais bela de sua aldeia, não pensou duas vezes, resolveu se candidatar, onde ela morava os bruxos viviam promovendo vários concursos; o concurso dos pés grandes, de quem tivesse mais pêlos nas orelhas, o de maior nariz, de dentes mais amarelados, das maiores unhas, o mais vesgo e também a da pessoa mais bela.
A Pobre bruxa solitária ganhou o concurso e partiu imediatamente para a aldeia feliz. Quando ela chegou aos portões da aldeia, foi logo barrada, ela era diferente de tudo que eles conheciam. Tinha o rosto todo enrugado e cheio de verrugas, os cabelos totalmente desalinhados e cheios de fios brancos. Ela disse que estava de passagem e que queria passar uns dias na aldeia para descansar. Os guardas, porém, não permitiram; tinham ordens de só deixar entrar na aldeia gente muito bonita, jovem e feliz. Então eles começaram a apontar o que eles achavam feio na bruxa.
- Olha o tamanho da cabeça dela! Parece uma abóbora gigante
Outro apontava o dedo e dizia:
- Olha o nariz! O que é aquilo? Uma verruga ou uma uva passa?
- Olha as orelhas! São orelhas ou asas? E ainda por cima tem pêlos!
- Vocês estão loucos ou cegos? Eu acabei de ganhar um prêmio de garota mais bonita da minha aldeia. Veja a minha faixa.
Na faixa estava escrito Miss Beleza Natural.
- Vejo que vocês não entendem nada de penteado e beleza.
- Não importa, você está fora do nosso padrão, não poderá entrar em nossa aldeia.
- Eu irei embora, mas deixarei uma lembrança para todos vocês.
Ela assoprou e de repente apareceu uma nuvenzinha sobre a aldeia.
- Que a minha beleza viva pra sempre em todos vocês!
Conforme a nuvenzinha se espalhava os moradores iam ficando todos velhos, não na idade, mas na aparência, a pele ia ficando bem enrugadinha, os olhos ficaram caídos e tristes, nas orelhas nasciam pequenos tuchos de pelugem, os dentes foram amarelando, os dedos ficaram magros e longos, as mãos murcharam, os cabelos ficaram grisalhos e as costas envergadas, até mesmo as crianças ficam assim para sempre.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Pombo Correio (CRÔNICA)



Rosicleyde ia saindo do cadeião de Santo Amaro, toda apressada, porém, como sempre, foi abordada.
- O que temos aí? Por que tanta pressa? -
-Ora, não é nada, seu guarda!
-O que é isso aí? Tem alguma coisa se mexendo dentro de sua bolsa!
-Ah... não é nada importante; veja, eu já fui revistada na entrada , vou ser revistada também na saída, que é isso! Isso já é abuso de poder, olha que eu também entendo de lei!
-Deixa de papo e abre a bolsa!
-Já lhe disse, não tem nada de importante. Olhe, são apenas uns franguinhos que Carlão, meu marido, está mandando para os meninos.
-Onde ele achou frango? Isso aqui por acaso virou granja? Quero ver, abra a bolsa!
-Que implicância! Satisfeito?!
-Ora! São pombos, dois pombos. O que a senhora vai fazer com esses pombos?
-Pombo o quê, seu guarda? Veja direitinho, tem olho de frango, bico de frango, tamanho de frango
e, se eu puxar uma peninha te garanto como ele vai cacarejar.
-Deixe de conversa mole e solte os bichos!
- Eu até solto, mas continuo achando que é um desperdício fazer uma coisa dessas em época de crise. Eu acho que é frango, se o senhor acha que é pombo, me deixe levar que eu farei uma frangada, ou pombada para os pequenos. O senhor não deve ter preconceito; ave é ave, os ricos comem andorinha, não comem? Nos tempos em que Carlão estava na ativa ele levava pombo e eu fazia no forno com azeite e orégano, é de lamber os beiços.
-Sinto muito, mas os pombos ficam!
-E os meninos, seu guarda? O senhor não tem pena?
-Encontre pombo em outro lugar.
-Tá difícil! Lá no morro não tem mais nem gato.
-Deixe de conversa e solte logo esses pombos.
Ela tirou as aves da bolsa e colocou-as no chão com um olhar de pesar, que dava pena de ver.
Na cabeça tinha apenas um pensamento:
“E agora, como é que eu vou mandar um celular para o Carlão?”
Regina Gois