"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

Cecília Meireles

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O órfão (CONTO)





O Órfão


A pequena mala na mão direita, com apenas algumas peças de roupas, dois pares de meias, um shorts, uma bermuda e uma camiseta que ganhara no último Natal. Seus amigos lhe invejavam.
-Como era sortudo! - todos comentavam. Ninguém era adotado com aquela idade. As pessoas procuravam sempre, bebês loiros de olhos claros, ele já passara dos oito anos, tinha a pele escura e um corpo bem mirrado.
Não se aguentava de felicidade, a respiração saía forçosa. Tinha medo que desse tudo errado, depois de tanto tempo sozinho, sonhando com aquele dia, dia de ir embora para sempre, de ter uma família de verdade, de ser filho de alguém. Lá no fundo da alma uma dúvida lhe atormentava. “E se eles se arrependerem, o que será de mim?”.
Já passara das dez da manhã, o horário combinado, mais uma vez ele olha pela veneziana entreaberta, e logo vê um carro parando na frente do prédio. O coração saltita, os olhos lacrimejam, já era possível sentir o cheirinho gostoso de aconchego.
Ela desce do carro e espera ansiosamente o marido. Ajeita os cabelos, segura firmemente na mão dele, sobe as escadarias quase a correr, com seus lindos olhos redondos brilhantes cheios de afeto, com todo o corpo a sorrir. Ele já estava na porta, pequeno demais para sua idade, mala no chão, braços abertos e lágrimas nos olhos. Ela ajoelhou-se em sua frente, abriu os braços e o abraçou fortemente. Ia finalmente conhecer a sua casa, ter uma família de verdade, ser amado.
Durante a viagem, sentou-se no banco de trás do carro ao lado dela, de mãos dadas. Pela janela passavam casas, prédios, ruas, pessoas, mas nada lhe despertava o interesse, queria olhar somente para ela, falar de sua alegria, dizer como estava feliz, mas as palavras não saiam então ele simplesmente sorria.
Entraram em uma rua estreita, de terra batida, foram até o final e logo avistaram, no meio de um grande terreno arborizado, um sobrado de tijolinhos à vista, com coberto de heras nas laterais. Logo na entrada havia uma varanda, com duas cadeiras de balanço e um banquinho de madeira.
Sua primeira casa de verdade, seu quarto, agora finalmente teria um quarto só seu.
Ele observava cada detalhe, com entusiasmo e encantamento; entraram pela sala com janelas acortinadas, andaram de mãos dadas até a longa escada de madeira, que ia dar no andar de cima. Lá em cima tinha vários quartos; somente dois estavam abertos e em uso, os outros só seriam abertos, quando recebessem visitas. Era a maneira mais fácil de manter tudo organizado, explicara ela. Seu quarto era ao lado do quarto do casal, isso o deixou feliz, pois nunca em sua vida dormira sozinho. Tudo tinha um cheirinho gostoso. O quarto era todo azul, os móveis brancos, havia um baú, uma cômoda com espelho, escrivaninha, criado mudo, uma poltrona com almofadas coloridas, um roupeiro com três portas e uma cama macia. Em cima da cômoda tinha um pequeno vaso com hortênsias. Era difícil de acreditar que tudo aquilo agora era dele. O roupeiro estava cheio de roupas do seu tamanho. Abriu as gavetas, tocou nas peças, delicadamente dobradas, peças de várias cores, havia espaços com sapatos e tênis, tudo novinho. Que sonho!
-Este é o seu quarto, gostou? Depois você poderá enfeitá-lo como achar melhor. As roupas estão no roupeiro e nas gavetas, veja!
Enquanto ele abria as portas, tocando levemente nas roupas, ela ia lhe apresentado o restante do quarto.
-É tudo muito lindo! Sinto-me até culpado de ter tanta coisa, não queria que vocês gastassem muito comigo, um teto para dormir e o amor de uma mãe já me bastava.
No fundo, ele tinha medo de não ser um bom filho, nunca pôde se lembrar dos pais, não sabia como se portar, não sabia ser filho, tinha receio de decepcioná-la.
O pai ficara em casa, não precisaria trabalhar, era sua folga. Ele era um homem alto, magro, reservado, tinha um rosto triste e um olhar distante. Enquanto a mãe providenciava o almoço, ele o pegou pela mão, e levou-o até o quintal, mostrou-lhe, a horta, o pomar, o galinheiro e os bichos que andavam soltos pelo gramado.
-Eu não gosto muito de bichos, eles fazem muita sujeira, estragam o gramado, dão um trabalho danado, mas Helena; sua mãe adora tudo quanto é bicho, se eu deixasse teríamos um zoológico. Veja o galinheiro, tem mais de trinta galinhas velhas, que não dão nem ovos, mas ela insiste em mantê-las vivas, não tem coragem de comê-las. Às vezes eu pego algumas e levo até a cidade e troco com uns amigos para poder renovar e dar mais espaço para as outras.
-Vocês têm cachorro?
-Sim, temos três, temos também gatos, estão por aí, deitados ou caçando algum bicho, vão aparecer mais tarde quando estiverem com fome. Vamos voltar o almoço já deve estar quase pronto, precisamos ajudar a pôr a mesa.
A copa era separada da cozinha por um balcão de mármore. Eduardo podia ver os dois, lado a lado na pia, ela cortando tomates e ele lavando as verduras que acabara de colher.
Pensou: Minha família, meu pai e minha mãe. Será que estou sonhando?
Olhando em cima do balcão, avistou uma toalha rendada, talheres, pratos e copos, então, colocou-se na ponta dos pés, puxou a toalha, e forrou a mesa. O pai, observando o seu interesse, cutucou o braço da esposa, que olhou para a criança e sorriu. Foi até o balcão, e entregou-lhe os talheres, os pratos, um a um. Ele pegava tudo e ia colocando na mesa com muito cuidado.
À noite, o pai sentou-se ao piano para tocar algumas músicas. A mãe levou-o ao quarto, mostrou-lhe a gaveta dos pijamas e das toalhas.
-Você consegue tomar banho sozinho?
-Sim! Ele respondeu, franzindo a sobrancelha, não conseguia imaginar alguém dando banho nele.
Ela ficou sentada na poltrona, com um livro aberto em cima do colo, quando ele voltou, ela colocou o livro sobre a cama e cheirou o seu cabelo, olhou as suas orelhas e as unhas.
E disse: - Muito bem! Estou gostando de ver, já sabe se cuidar. Agora vamos deitar? Posso ler uma história para você?
Ele não respondeu, apenas bateu palmas e abriu um lindo sorriso.
Ela sentou-se novamente, pegou o livro e começou a ler. Enquanto ele pensava: “tenho um pai tocando, na sala de estar e uma mãe aqui lendo para mim”. De repente sentiu um aperto no peito.
- Não quero dormir! - falou.
- O que houve? Você está cansado, precisa dormir.
Então, ele falou com a voz entrecortada e trêmula:
- Tenho medo de acordar e nada disso ser real.
- Eu juro que é real, eu estarei aqui amanhã, pode ter certeza. Você será muito feliz, eu lhe prometo.
- Tenho muito medo! Falou, com uma voz de cortar o coração.
- Me diga, quais são os seus medos?
- Tenho medo de ser chato, medo de fazer coisas erradas... Falar palavrão, de vocês se cansarem de mim e me devolverem. Lembrou-se, que conhecia alguns palavrões com a letra P. Um dia estava com outro colega brincando, e acabaram esbarrando em um moleque maior. O menino olhou para eles com uma cara muito feia e gritou:
- Filhos da Puta!
Ele levou um susto, pensou: Será que ele conhece a nossa mãe?
Então perguntou ao moleque:
- A nossa mãe é puta?
Tiveram que sair correndo, porque o moleque armou o braço para socá-los. Chegando ao orfanato, perguntou à freira o que a palavra queria dizer, ela respondeu que era uma palavra muito feia. Um palavrão! E fê-lo prometer, que não repetiria mais, aquela palavra. Lembrou-se bem, da irmã Clara falando, que os pais adotivos não gostavam de meninos que falavam palavrões.
- Eu juro que é real e eu estarei aqui amanhã. Se você fizer qualquer coisa errada, eu estarei aqui para lhe orientar, se você falar palavrões, eu também estarei pronta para lhe explicar o significado de cada palavra, combinado? Você será muito feliz, eu lhe prometo.
Acordou com o cantar dos galos, mas seu corpo ainda estava cansado e seu olho se recusou a abrir, pegou o travesseiro cobriu o rosto e voltou a dormir.
Já passava das nove horas, quando ouviu baterem na porta do seu quarto. Era o pai, sério como sempre, levantou as sobrancelhas, enrugou a testa e disse:
- Bom dia rapaz, vamos levantar! A mesa do café já está pronta.
A mãe o recebeu no pé da escada, com um largo sorriso e os braços abertos. Por um momento, ele esqueceu-se do seu tamanho e jogou-se em seu colo.
- Eu não disse que estaria aqui? - Disse ela olhando-o nos olhos. - Eu sempre estarei aqui!
Olhando a mesa farta, relembrou-se dos momentos que passara fome, andando nas ruas da cidade, onde às vezes rezava por um pedaço de pão, mesmo que fosse duro; aqueles que sobram do café da manhã e as pessoas deixam murchar nos armários, para depois, jogarem no lixo. Esse tempo passara. Sua vida agora era pura alegria.
Eduardo acordou com o som da sirene, como nas outras manhãs, tudo estava igual, o mesmo quarto cheio de beliches, com grandes manchas de umidade nas paredes e um forte cheiro de xixi dos pequenos. Não adiantava chorar.

Regina Góis de Mello

2 comentários:

  1. Ai que dó Rê...queria tanto um final feliz!!

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  2. Essa,segundo os entendidos, é a verdadeira estrutura do conto: uma narrativa em prosa, centrada em um ou poucos personagens, que se desenrola num curto espaço de tempo e que, como os de Machado de Assis, termina de maneira imprevisível. Adoro isso. Parabéns.
    HFigueira

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