"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

Cecília Meireles

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Loucuras de mamãe

-Lucas! Como está a sua mãe?

-Melhor, D. Rita, eu fui visita-lá ontem. Ela disse que estava muito cansada, e realmente parecia muitíssimo cansada. Tinha até olheiras profundas, eu lhe perguntei o porquê de tanto cansaço, achei que os enfermeiros estavam lhe dando muitas atividades físicas para aumentar a serotonina. Ela me respondeu que estava cansada, porque tivera muitos filhos, e que eles davam muito trabalho, principalmente à noite, quando miavam muito. A pobre estava toda arranhada de tanto se enfiar embaixo da cama, procurando seus "filhos".

-Como ela pode estar bem, falando estas besteiras?

- A senhora não viu o estado em que ela se encontrava antes da internação. Ficou uma semana embaixo da cama com a luz apagada, não saía nem para comer, a única pessoa que podia entrar no quarto sem correr risco de morte era a minha avó; meu pai, coitado, vivia todo mordido e unhado, toda vez que ele tentava se aproximar, ela atacava.

-Que pena! Desejo melhoras para ela.

-Obrigado! Agradeço muito a sua preocupação.

Eu já estava bastante acostumado com as frequentes perguntas, dos vizinhos, conhecidos e parentes; não me deixava nem um pouco constrangido, todos sabiam como era a vida de minha família. Quando minha mãe surtava; o que, não era raro, todos tomavam conhecimento e tentavam ajudar de alguma maneira.

Lembrei-me da vez em que ela pegou o carro de madrugada e foi embora. Não tínhamos outro carro para segui-la, somente no dia seguinte é que fomos atrás dela, com um carro emprestado do nosso vizinho. Procuramos em todos os cantos, casa de parentes, hospitais, cadeias, IML, e nada. Foi desesperador. Depois de uma semana, meu pai conseguiu encontrá-la numa praça qualquer da cidade, descalça, com as roupas imundas e rasgadas, os cabelos emplastados. Quando tentamos trazê-la para casa, ela se debateu, chutou, mordeu e se agarrou no banco da praça, foi preciso contar com a ajuda de várias pessoas para levá-la até o carro. No trajeto para casa, ela gritava, cuspia, babava e lambia o vidro do carro, que ficou todo melecado com a sujeira de suas mãos e rosto.

Chegando em casa, foi preciso duas pessoas para dar banho nela, nós a colocamos em baixo do chuveiro, só depois tiramos as suas roupas imundas, que foram direto para o lixo. Meu pai a segurava, enquanto a minha avó a lavava, aí então ela se acalmou e voltou a falar com alguma coerência.

O sabonete e o xampu tinham que ser passados na esponja, para que ela não comesse ou bebesse; por várias vezes enfiei o dedo em sua boca para tirar os pedaços de sabonete.

Quando ela resolvia cozinhar, era muito especial. Ela gostava de fazer bolos e pães, mas todos tinham de ficar de olho em todos os detalhes. Os pães saíam com ovos inteiros e os bolos salgados, com talheres no meio. Chegamos até a comer bolo de fubá salgado e com pimenta. Era uma loucura!

O fato mais grave de que me lembro, foi no aniversário de 35 anos de meu pai. Ele não gostava de festas, então resolvemos fazer um jantar surpresa. Minhas avós e minhas tias chegaram trazendo cada uma, um prato. Minha mãe quis ficar responsável pelas tortas e salgados. A mesa ficou linda. Os pratos foram colocados um a um, todos com uma aparência maravilhosa, só faltavam os assados de minha mãe. Meu pai chegou, e foi aquela surpresa.

Estávamos prontos para comer, brindamos e alguém lembrou que estava faltando à mamãe com os seus assados. Eu saí do meu lugar e fui até a cozinha ajudá-la. Chegando lá, vi que a bancada da pia estava repleta de assadeiras. Tinha também assadeiras no chão e em cima do fogão. Cheguei a contar doze pratos, com várias partes de carnes e aves assadas. O cheiro era inebriante, a aparência maravilhosa.

Ela estava muito contente com seu trabalho, enfeitara todos os pratos, com muita delicadeza e carinho, parecia uma criança em meio aos seus brinquedos. Comemos muito, e distribuímos para os vizinhos um pouco aquela fartura. Ninguém teve a preocupação de perguntar onde ela encontrou tantas espécies. Dias depois ouvimos boatos de sumiço de alguns animais da vizinhança. Foram encontrados esqueletos de bichos em nosso quintal, até os coelhos e os pombos de minha vizinha sumiram. Vi uns cartazes na padaria e nos postes do nosso bairro, de alguns animais desaparecidos, mas nunca pudemos provar nada, e muito menos perguntar para ela.

Mamãe sempre foi muito sensível e caridosa, nada era somente dela, sempre que tinha oportunidade de ajudar o próximo lá estava ela. Nossa geladeira tinha apenas o essencial para o dia, e nossos armários tinham trancas com chaves, como também os guarda-roupas e as sapateiras. E havia um motivo para isso. Quando alguém chegava batendo na porta e pedindo algo para comer, minha mãe dava tudo o que estava ao seu alcance; frutas, macarrão, arroz, óleo..., enchia as mãos, as sacolas e entregava. E ainda falava: - Espera aí que tem mais um pouquinho. Dava tudo o que tínhamos em casa. O mesmo acontecia com as roupas e os sapatos. Não podia ver uma pessoa passando frio ou com roupas surradas. Quando víamos, tínhamos que tirar da mão dela e esconder. Mesmo assim, ela não se conformava e ficava procurando pela casa algo que pudesse ser doado.

Eu estava acostumado com a minha vida em família, na verdade não conhecia outra. O que é ser normal ou ter uma família normal, quem sabe? Todos têm seus altos e baixos. Todos têm conflitos, só sei que tenho aprendido muita coisa sobre fé, amizade, compaixão e principalmente amor.

2 comentários:

  1. Eu simplesmente amei esse conto!Prabéns!

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  2. Faço minhas as palavras da Neth..também amei!!

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