"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

Cecília Meireles

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O PEQUENO BERNARDO (CONTO)

Lá vem o Bernardo correndo com a sua mochila nas costas. Finalmente avista a mãe, que estava à sua espera no portão da escolinha, enquanto ele tagarelava com os coleguinhas. Tem apenas três anos, mas comporta-se como um pequeno adolescente. Vive cercado de amiguinhos e está sempre cheio de assuntos para conversar.
A mãe coloca-o em sua cadeirinha no banco traseiro do carro e seguem para casa. Olhando pelo retrovisor, ela observa que ele está diferente dos outros dias, tem no rosto uma expressão pensativa, séria e não está falando o tempo todo como sempre faz.
Através da janela do carro ele fica observando as crianças brincando na rua. Seus olhos brilham.  Pensa: Quero ser grande, para poder correr pela rua, empinar pipas, comprar balas na padaria sozinho. Lá na frente um garoto anda de bicicleta livremente, ele o segue com os olhos curiosos. E pensa: Eu também vou ter uma bicicleta sem rodinhas, para andar na rua. 
-O que você tem Bernardo? Está tão quieto. –pergunta a mãe preocupada.
-Tô brabo, não quelo falar. –ele responde fazendo uma carinha séria.
-Por que você está bravo filho? O que houve?
- Mãe, a gente conversa em casa- disse ele com firmeza.
 A mãe teve que se segurar para não rir. Ele tinha um jeito de dizer às coisas que o fazia parecer adulto. “Como esse menino tem personalidade. Às vezes faz essa carinha de bravo, que até assusta a gente. Outras vezes fica risonho, abraça e beija todo mundo e diz eu te amo espontaneamente. Essas crianças de hoje! Quem entende”.
-Tá bom, a gente conversa em casa. -disse a mãe, desistindo de conversar e se concentrando no trânsito.
Chegando em casa ele correu para o sofá, pegou o controle remoto e ligou a televisão; procurou um canal de desenho e sentou-se no sofá com as pernas abertas, os braços cruzados e os olhos fixos no desenho.
De repente a porta da sala se abre. Ele já sabe quem é. Pula do sofá e vai até a porta correndo. -Papai! –grita Bernardo com os braços estendidos e se pendurando no pescoço do pai.  O Pai afaga seus cabelos, dá um beijo em seu rosto e pergunta: - Bernardo como foi o seu dia?
-Agola eu não posso falar, to vendo desenho. - ele respondeu voltando os olhinhos para a telinha.
-Tá bom, vou preparar o seu banho, ok? -disse o pai, dirigindo-se a cozinha para cumprimentar a esposa.
-Vamos tomar banho Bernardo! -chamou o pai do banheiro.
-A banheira já está cheia? Veja se meus bichinhos estão aí? –gritou Bernardo olhando fixamente para a televisão.
-Venha logo! Ou a água vai esfriar. -falou o pai pela quinta vez.
-Espela mais um pouquinho, começou outro desenho.
-Ah... Bernardo, você já viu esse desenho mais de mil vezes. Venha logo, filho.
Depois de chamar várias vezes, o pai perde a paciência e vai até a sala. Bernardo se deixa despir ali mesmo no sofá de olho na TV. Em pouco tempo ele está nu. O pai o carrega no ombro até o banheiro. Agora o difícil será tirá-lo da banheira, onde ele ficará brincando com seus bichinhos de borracha até a água ficar fria.
Quando a janta está pronta e na mesa, a mãe grita para o marido tirar o pequeno do banho. Com o pai, ele não teima tanto.
Logo ele aparece sorridente na sala, com suas bochechas gordinhas rosadas, seus cabelos penteados de lado, está usando um pijaminha azul ilustrado; ele já sabe o que a mãe vai dizer.
 -Que lindo! Que cheiroso!- A mãe para o que esta fazendo para beijar-lhe o rosto. E apertar-lhe as bochechas.
Bernardo foi até a mesa e arrastou a cadeira. Ele sempre se senta sozinho, não gosta de ajuda. Joga uma parte do corpo, depois com grande esforço consegue finalmente sentar-se. Quando a mãe vem com seu prato e os talheres, ameaçando dar comida em sua boca, ele já estende a mão para pegar o talher e diz:
-Deixa! Eu já sei comer sozinho.
Examina o prato com seus olhinhos pequenos, reconheceu o arroz, o feijão, o franguinho com batata que ele tanto adora e coloca o dedinho em um montinho verde ao lado do arroz. Acha estranho, enruga a testa e pergunta: - O que é isso verde aqui mamãe?
-É couve filho. É uma delícia. Experimente só um pouquinho.
-Ah, parece mato! –resmunga ele enrugando a testa.
Desajeitado e com a ajuda dos dedos vai enchendo a colher e leva à boca somente o que já conhece.
A mãe olha a maneira como ele ajeita a comida na colherzinha e fala. -Olha só para você, colocando a mão na comida! Você precisa começar a comer com garfo e faca, vamos começar a treinar? O que você acha?
-Ah, não! Mamãe, eu só vou comer com galfo e faca, quando eu fizer quatro anos. –disse mostrando quatro dedinhos gorduchos.
 E então pergunta:
-Não tem Cola-Cola?
-Não Bernardo, hoje só tem suco de laranja, quer? Eu não tive tempo de comprar refrigerante para você.
-Não tem ploblema mamãe, amanhã você compra tá!
Ele olha para o pai, depois para a mãe. Sabe que precisa comer tudo ou não vai ter historinha na hora de dormir. A mãe até que o deixaria levantar-se da mesa, mas o pai gostava de ver o prato limpinho.
-Agora, fala como foi o seu dia? O que você fez lá na escolinha? -perguntou a mãe curiosa.
Ela insistia para saber o que tinha acontecido na escola, porque sabia que, mesmo ele sendo muito querido pelas tias e pelos amiguinhos, de vez em quando aprontava, arrumava confusão e não aceitava algumas regras, chegando até a brigar pelo que queria.
-Ahh...Nós cantamos umas músicas, a tia leu historinhas, brincamos no parquinho, comemos, dormimos e comemos de novo. Aí você chegou, nem tive tempo de falar direito com meus amiguinhos.
-E porque você não quis conversar no carro?
-Eu estava pensando... –disse ele olhando para o pai e depois voltando o olhar para a mãe.
-Pensando no que Bê? Perguntou a mãe preocupada.
-Que quelo crescer logo. –respondeu ele enfiando uma colherada de comida na boca.
- Crescer logo, para quê? –perguntou o pai.
- Pala andar na rua sozinho, ir pescar com você, jogar bola com os outros meninos...
-Que legal! Então, come tudo para crescer e ficar bem forte. –disse a mãe, dando um longo suspiro, olhando para o marido e piscando.
-Quelo ir pala Nova Odessa. –ele falou de repente, batendo os dedinhos na mesa.
-Por que você quer ir para Nova Odessa? – perguntou o pai.
-Lá tem muita gente, o João, o Raul o Henrique, a Renata a Malina... Aqui eu fico sozinho. - respondeu ele fazendo uma carinha triste.
-Mas, o João, o Raul e o Henrique não moram em Nova Odessa.  Eles moram aqui em São Paulo. - respondeu a mãe.
Ele pensou um pouco, depois disse:
- Queria ficar lá,... em Nova Odessa tem mais tios. Eles podem cuidar de mim, me levar para a escola...
- A sua escola é aqui, Bernardo. Lá não tem escola para você. - disse o pai.
-Ah..., mas então eu fico lá e não vou para a escola. A tia cuida de mim.  Lá tem cachorro, tem gato...
-A Tia não vai conseguir cuidar de você. Ela vive dizendo que você tem os “olhos juntos”.
-Mãe, o que é ter “olhos juntos”?
-Ela te chama assim, porque você é muito levado, não para quieto nem por um segundo.
_Ah... tá... -Não completou a frase. Ficou comendo em silêncio por alguns instantes como se estivesse pensando.  
-Nós iremos para Nova Odessa no próximo feriado. –disse o pai, olhando para o menino. – O que você acha Bernardo?  
O rosto de Bernardo se iluminou. Então ele deu um sorriso, um sorriso muito aberto e puro. Perguntou: - Amanhã papai?
-Não querido. Na outra semana, não vai demorar nada, você vai ver. 
-Ah, papai e se a gente for agora! Lá tem tanta gente, têm tanta coisa para brincar. -Quando eu for grande, vou ter filhos e vou morar em Nova Odessa. - disse ele com o semblante sério.
A mãe sorriu.
-Mas você ainda nem tem namorada?
-Tenho sim! – respondeu ele com firmeza.
-Quer dizer que você já tem namorada? -perguntou a mãe espantada. -Quem é a sua namorada?     
Ele dá um risinho tímido e fala. -A Janaína da minha escolinha.
-Nossa filho, que legal! -a mãe falou enquanto olhava para o marido e piscavas os olhos.
Ele então levou a mão ao peito e disse.  -A Janaína tá no meu colação.
Os pais se entreolharam sorrindo, cada dia eles se surpreendiam mais com as conversas do Bernardo.  
-Pronto! Mamãe já comi tudo, você me conta a história do Lobo mau?
-De novo! Ontem eu já te contei essa história.
-Conta de novo, por favor, eu gosto muito do lobo mau.
Ela ficara o dia inteiro esperando aquele momento. Sentou-se ao lado do Bernardo na cama. Enquanto ele abria o livro com seus pequenos dedos e escolhia a história que ela iria lhe contar, não uma, nem duas, mais várias vezes.  Até que seus olhinhos se fechassem.
Então, ela silenciosamente lhe dá um delicioso beijinho de boa noite e saí do quarto na pontinha dos pés.



6 comentários:

  1. Reeee,amei-a-história-do-Bernardo!Você-retratou-mto-bem-o-estilo-de-viver-e-de-ser-dele!Vou-imprimir-e-guardar-comigo-para-sempre!Amei!!Beijão.Jane

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  2. Amei a história! esse menino é esperto e sábio! Querer morar em Nova Odessa! hehe

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  3. Parabéns mais uma vez Rê!! Você é DEMAIS!! Que memória maravilhosa, que criatividade, que sensibilidade!! Realmente é para se emocionar!!

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  4. Como a Elã disse: vc é demais e que sensibilidade, parabéns. Agora que tal um conto sobre 3 meninos levados hein? rsrsrs Beijos querida. Vania.

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  5. Eu estou fazendo o seu conto, correndo na rua com a bolsa da D. Maria ha,hahahahahhhaa...
    Manda as pérolas deles, tenho certeza que você teve ter bastante.
    Beijos

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  6. PArabéms Regina!! Amei seu blog e já estou te seguindo! Abraços e Feliz Ano Novo!

    Quando quiser faça uma vistinha no nosso blog, e se quiser seguir será um prazer!! rs

    www.arteverartesanatoecia.blogspot.com

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