"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

Cecília Meireles

terça-feira, 22 de março de 2011

UM MALUCO NO SPA

Todos falavam da gordura exagerada do Dagoberto. Os médicos já estavam cansados de passar dietas e pedir que ele fizesse uma reeducação alimentar. A esposa ameaçava mandá-lo dormir definitivamente no sofá. Ele aparentemente não se importava, não era daquelas pessoas que ouvem o que os outros falam e ficam se martirizando. Ao contrário, continuava frequentando assiduamente as churrascarias, adorava aquela gordurinha crocante da picanha, refrigerante para ele tinha que ter duas garrafas, ou então cervejas bem geladas, que ele nunca conseguia lembrar quantas tinha bebido. Quando cansava dos churrascos, ia às cantinas italianas, adorava uma boa massa com bastante molho e queijo. E a sobremesa, então... adorava todas, principalmente pudim de leite condensado, mousse, petit gâteau, creme de papaia com cassis, sorvetes, tortas, etc. Quanto mais diziam que ele estava gordo, mais ele comia, e comia com gosto, comia com prazer. Não queria nem saber dos regimes impostos pelos médicos. A esposa fazia os pratos balanceados com bastante verduras, legumes, tudo direitinho, como mandava a dieta, mas acabava comendo tudo sozinha.
Ele dizia: _Quem é que vai comer isso? -apontava para a saladeira repleta de verduras.
_Querido, é alface, acelga e almeirão com tomate. -respondia a esposa calmamente.
_Eu é que não como, não sou coelho! - disse ele olhando para o prato com repulsa.
_Então vai ficar sem comer, só tem isso. - disse a mulher, tentando demonstrar indiferença.
_Ótimo! -afirmou ele indiferente, deu de ombros e levantou-se. _Não estou com fome mesmo! Vou dar uma volta. Foi à padaria da esquina, comeu vários sanduiches e se saciou.
Foi no final do ano passado que os parentes resolveram lhe dar um presente.
_Não quero! Isso é presente de grego - disse ele vermelho de raiva.
_Você vai sim! - ordenou a esposa decidida.
_Vocês querem que eu passe duas semanas em um SPA? Estão loucos? _perguntou ele, sacudindo a cabeça de um lado para o outro.
_É para o seu próprio bem - falou novamente a esposa, com brandura.
_Você quer o meu bem? Então faça uma bela macarronada com bastante molho e queijo. - respondeu ele irritado, gesticulando, com a fisionomia séria.
_Berto, meu bem, pense em seus filhos... você não consegue nem acompanhá-los em suas brincadeiras; correr com eles, jogar bola, empinar pipas, como os outros pais. Ela sabia que quando se tratava das crianças ele realmente ficava comovido, era louco pelos filhos, e realmente sentia muito não poder brincar com eles.
Tudo tinha sido planejado antecipadamente. Fizeram um pacote de três semanas em um SPA, no interior de São Paulo. A esposa levou os exames para serem avaliados, e explicou para o médico o quanto ele era resistente a mudanças. E alertou que, se ele aceitasse passar um tempo no SPA, com certeza ele levaria comida escondida.
Só faltava mesmo era convencer o Bertão – era assim que os amigos lhe chamavam - a se hospedar em suas férias de Janeiro.
Depois de muita discussão ele aceitou o presente e partiu, mesmo a contra gosto. É claro, no dia anterior fez um churrasco regado a muita cerveja em sua casa para se despedir dos amigos. Parecia que faria uma longa viagem para outro continente, tamanha era a sua tristeza.
Ele chegou ao SPA bem cedo, numa manhã quente, nem parecia que tinha chovido na noite anterior. Passou pelo grande portão automático e foi introduzido à sala de espera para ter sua primeira entrevista com a nutricionista. Lá estava ele: sozinho, mala ao lado da cadeira, olhos verdes grandes e inquietos, mãos trêmulas, seu rosto redondo e vermelho, suando. A todo momento ele secava-se com uma pequena toalha.
Depois de alguns minutos apareceu a nutricionista, uma jovem senhora de olhar firme e postura altiva.
_Bom Dia, Sr. Dagoberto, vamos entrar. -chamou a nutricionista da porta de sua sala.
_Sente-se, por favor. -apontou uma cadeira que estava em frente a uma grande mesa de vidro transparente.
Logo que ele se acomodou, ela começou a falar, de maneira muito educada, esboçando de vez em quando um sorriso, dos benefícios de uma alimentação adequada, e principalmente da proibição de consumo de alimentos que não fossem do SPA.
Foi então que ela se levantou de onde estava sentada e disse:
_O Senhor certamente tem bagagem, não tem?
_Sim, está aqui. –ele apontou para a mala ao lado da cadeira.
_O Senhor poderia abri-la, por favor?
_Como assim, abrir minha mala? _perguntou ele meio confuso. Em momento algum ele imaginou que isso aconteceria.
_Só gostaria de assegurar-me de que o senhor, não trouxe nenhum alimento. São normas do SPA, lembre-se. “Nada de alimentos de fora”. -disse ela com as sobrancelhas ligeiramente arqueadas e olhando firme para Bertão. Então ela começou a andar pela sala e falar: ­_ ­­­Pode não ser o seu caso, mas alguns pacientes vêm se hospedar com as malas recheadas, não só de roupas. _Coloque sua mala ali! - ela apontou para um balcão de madeira nos fundos da sala.
Ele tentou erguer a mala, mas de repente ela parecia tão pesada! Deu uma moleza nos braços, suas mãos não obedeciam ao seu comando. Ele ajeitou os cabelos, secou novamente o rosto. Somente depois de algum tempo, ele se recompôs, e meio relutante, colocou a mala sobre o balcão e ficou imóvel a observá-la.
_Abra a mala, por favor! _ ordenou a mulher, com um olhar de desafio.
_Não tem nada de comida aqui dentro!_afirmou ele, olhando firmemente para a mala.
_É exatamente o que todos dizem. _respondeu ela com segurança. _Nesses anos de trabalho, o senhor nem imagina o que eu tenho visto! Teve uma distinta senhora que veio pra cá, por conta própria, queria, porque queria perder uns quilos para desfilar em uma escola de samba. Sabe o que encontramos em sua bagagem...? "Um bolo de chocolate recheado!" Tente imaginar, senhor Dagoberto...! _Nossa!!! Não dá nem para imaginar uma cena dessa._disse Bertão, arregalando os olhos. _Teve outro caso bem interessante; o de um jogador de futebol que precisava perder muito peso. Encontramos em sua mala um pote plástico grande, cheio de frango assado com farofa. Bertão, não dizia nada, apenas meneava a cabeça e secava o suor que insistia em escorrer pelo seu rosto. _Agora o senhor me entende? –ela dizia essas coisas gesticulando, como se quisesse demonstrar exatamente como tudo aconteceu. _Pedimos para os nossos pacientes que abram as malas, para que o nosso programa tenha sucesso.
Ele começou a tirar as peças da mala, suas mãos tremiam, o suor escorria do rosto para o largo pescoço. Cada peça que tirava descobria uma barra de chocolate, um pacote de biscoito recheado, tirava outra peça e então caia um pacotinho de bolinho, ou então de salgadinho, caixinhas de achocolatados, amendoins, latinhas de cerveja e assim foi até que a mala estivesse totalmente vazia; roupas mesmo, havia poucas.
Depois de tudo confiscado, ele foi conduzido ao quarto, com a cara amarrada. Na cabeça tinha apenas um pensamento. “Mulher miserável! Não me deixou nem com as balinhas de goma”.
Pelo menos ela lhe deu uma esperança, comeria a cada três horas. Pelo menos isso! Pensou ele. ­­Não teria tempo de sentir fome.
Desde o raiar do dia ele já estava rondando o refeitório. Às sete, quando as portas do refeitório se abriram para o café, ele foi o primeiro a entrar. Bem próximo à porta, ficava uma mesinha redonda, com umas jarras de vidro. Dentro, havia líquidos coloridos. Pensou: “ Se está aqui, é para beber!" No dia anterior ele não havia tomado o café da manhã, tinha feito somente as outras refeições, e achou que no segundo dia as coisas seriam diferentes.
"Deve ser suco!" Pegou um copo, tinha vontade mesmo era de virar a jarra, mas ia se contentar com o copo. Encheu até a boca e - glup! Engoliu tudo de uma só vez.
_Eca!!! Que coisa horrorosa. _gritou ele, com a língua para fora fazendo uma careta_ O que é isso? -perguntou ele, enquanto segurava a garganta, fazendo cara de nojo.
_É suco de couve com gengibre, pode por adoçante se preferir. -respondeu uma moça que arrumava as mesas.
Ele olhou a outra jarra com certa desconfiança, tinha um liquido de tonalidade mais escura. Ele pensou: Pode ser suco de chocolate! Não quis arriscar. _E esse, de que é?_ perguntou, apontando a jarra.
_Esse é de ameixa com farelo de trigo. _respondeu a moça sorridente.
_E essa outra transparente, com umas casquinhas no fundo, o que é?
_Ah! É água com casquinhas de limão._ respondeu a moça sempre sorridente.
“Quem é que bebe isso?” resmungou ele, dirigindo-se a uma das mesas, meneando a cabeça.
Logo os hóspedes começaram a chegar, em sua maioria mulheres, de várias idades, e não eram todas gordas. Umas não tinham nada de gordura em seus corpos. O refeitório estava bem iluminado pela luz do dia. Então ele pensou: Preciso fazer amizade logo, num lugar desses a gente tem de se unir para aprender os truques e sobreviver. E é claro, se alguém deixar alguma coisa no prato, o outro come.
O café chegou, era apenas meio pãozinho com meia fatia de peito de peru e uma xícara média de café com leite. Dagoberto devorou tudo em duas mordidas, e continuou com fome.
Ele queria mesmo era a garrafa de café inteirinha em sua mesa, dois pães na chapa, um bom pedaço de bolo, queijo amarelo, ovos mexidos, e muito leite. Ele adorava leite quente.
Mesmo sabendo a resposta, ele perguntou: _É possível repetir, moça?
A moça sorridente falou: _O senhor pode complementar a refeição somente com os sucos das jarras. -apontou para as jarras da mesinha da entrada.
Ele olhou para a mesinha da entrada, e não acreditou no que viu: Em volta da mesinha tinha umas pessoas enchendo seus copos e bebericando, como se estivessem tomando uma deliciosa laranjada. Bertão, meneou a cabeça e pensou: Tem gosto para tudo!
No almoço vinha uma pequena porção de arroz, do tamanho de um copinho plástico, desses que se coloca gelatina, tinha até o formato do copo, uma colher de legumes, um pequeno pedaço de peixe grelhado; tudo muito bonito, enfeitado com a casca de um limão, em forma de molinha, um pratinho com duas folhas de alface e duas rodelas de tomate, de sobremesa, veio um minúsculo cacho de uva, dava até para contar, tinha apenas meia dúzia de uvinhas.
Ele comeu tudo! Tudo mesmo, a casca do limão em forma de mola, as uvas e todos os talinhos da uva, não sobrou absolutamente nada em seu prato. Porém, a fome não dava trégua. Não conseguia se satisfazer com a pequena quantidade de comida que recebia.
Durante o almoço a nutricionista andava pelo refeitório, sentava hora com um, hora com outro, conversava e logo se levantava, até que chegou a vez de Bertão.
_O Senhor precisa comer bem devagar, mastigar bem os alimentos, dividi-los em pequenas porções, entendeu? Coloque sempre pouca comida na boca, para enganar o cérebro. _dizia ela fazendo gestos, como se estivesse levando a comida a boca e mastigando. _ E não coma os enfeites do prato! Por falar em enfeite, cadê o galho da uva?
_Galho da uva...? _ perguntou ele meio confuso. _Ora, ora! Cadê o talinho da uva? As uvas vieram em um cachinho, ou as suas vieram soltas? -perguntava insistentemente a mulher, num tom de voz debochado.
Ele não respondeu, não sentia nenhuma vontade de falar.
Ela então levantou-se e disse: _Deixa prá lá.
No lanche geralmente davam uma minúscula maçã, do tamanho de uma ameixa, todas tinham o mesmo tamanho. Não adiantava escolher, a única diferença era que algumas vinham com talinho, somente os sortudos conseguiam uma com talo, ele ainda não tivera essa sorte. As senhoras com quem ele fez amizade, garantiram que o talinho era simplesmente delicioso.
O ambiente do SPA era muito acolhedor, ficava em um enorme terreno plano, dentro de seus portões havia um lindo gramado, que ia da entrada até os apartamentos, descia até as salas de jogos e contornava as piscinas. Era interrompido apenas pela pista de cooper e por alguns quiosques onde tinha cadeiras e redes. A pista de cooper contornava todo o espaço inclusive os fundos dos apartamentos, donde havia um pequeno pomar, com pés de jabuticaba, acerola e carambola.
Dagoberto, gostava de ficar sentado, olhando para a quadra de basquete, onde alguns hóspedes jogavam. Gostava também de olhar os pássaros e as galinhas que ciscavam soltas pelo gramado. As galinhas gordas desfilavam na frente de seus olhos. Ele as olhava com gula, imaginava-as assadas, ensopadas com batatas, fritas e empanadas. Foi aí que teve uma ideia: "Onde tem galinhas tem ovos!" Pronto, agora ele teria um objetivo; caçar os ninhos.
Enquanto andava caçando ninhos, ele ouviu duas senhoras conversando, em volta de uma pequena roseira. Ele olhava intrigado, pois elas conversavam e mastigavam sem parar. Foi então que ele viu que elas disfarçadamente tiravam as pétalas das rosas e enfiavam na boca, como se fossem salgadinhos. A mais idosa dizia a outra que havia visto carambolas maduras no pé, durante a caminhada da manhã. Ele então se animou, não gostava de carambolas, mas com a fome que estava qualquer coisa seria bem vinda. Saiu de fininho, olhando em volta para verificar se estava sozinho. Contornou a pista de cooper, dirigiu-se ao pomar, encontrou enfim os pés de carambola. Olhou, mexeu nas folhagens, haviam muitas folhas amarelas, mas carambolas, somente verdes. Olhou para o chão, lá estavam elas, algumas carambolas amarelinhas, suculentas, dava para ver entre as folhagens, ele imediatamente se abaixou e pegou uma. Estava amassada, cheia de pontinhos pretos, com umas lagartinhas se mexendo dentro._ Que droga! _gritou indignado.
Pegou outra, e mais outra, todas no mesmo estado. Pensou: As maduras estão podres, cheias de bichos. Aquela velha não sabe distinguir folhas amarelas de fruto. Levantou-se, olhou novamente para os lados, estava sozinho. Meteu as mãos no meio das folhagens, pegou algumas carambolas verdes, colocou-as nos bolsos de sua bermuda e se dirigiu ofegante para o quarto.
O quarto ficava no segundo andar. Não tinha elevador, subir as escadas era mais um exercício, ele subiu cada degrau o mais depressa possível, chegou ao quarto sem fôlego, mas contente. Enfiou a mão nos bolsos e tirou os frutos e foi colocando em cima da cama um a um, parecia um menino enfileirando seus carrinhos. Não se conteve, foi ao lavatório do banheiro e lavou as carambolas. Sentou-se na cama em total silêncio e comeu todas de uma só vez; eram azedinhas, durinhas, mas estavam deliciosas. Sempre depois do almoço ele dava uma disfarçada, sentava-se nas cadeiras do jardim, fingia ler um livro, e quando não tinha ninguém por perto, ia catar carambolas verdes, até o dia em que não aquentou mais, tudo nele estava azedinho. Enjoou das carambolas, não queria vê-las nem pintadas de ouro.
Voltou para sua busca solitária, pensando: “No meio daquele monte de mato, tinha que ter um ninho, só unzinho.”
Foi durante uma caminhada matinal. Lá estava ele, suando em bicas, cara vermelha, sem fôlego, mas quando viu uma galinha agachada em um canto, só podia ser um ninho, teve um novo ânimo, arregalou os olhos, o cansaço de repente sumiu. Ele então, distanciou-se mais do grupo de caminhada, fingiu amarrar o tênis; quando viu que tinha ficado para trás e que ninguém lhe observava, saiu da trilha e foi atrás do ninho. Para sua sorte, havia dois ovos de tamanho médio. Sua boca encheu-se de água. Estava há mais de uma semana sem sentir o gosto de um ovinho. Enfiou os ovos com delicadeza nos bolsos da bermuda e interrompeu a caminhada sem nenhum remorso. Voltou para o quarto e pensou que precisava arrumar um jeito de fazer aqueles ovos, não iria comê-los cru, isso não, não gostava de ovos crus. Ovos quentes são deliciosos! O que fazer, para esquentar os ovos? Foi então que teve uma ideia, pegou um copinho plástico, desses usados para beber água, foi até o banheiro, ligou o chuveiro e deixou cair água quente dentro do copo. Pensou: Se pelo menos tivesse uma banheira seria mais fácil. Durante alguns minutos, ele dedicou-se a este trabalho, colocar água quente, esperar esfriar um pouco, jogar fora e colocar outra água quente. Depois de algum tempo colocou o ovo na mão, realmente estava bem quentinho. Pensou: Ah! Que delícia! Sentou-se em sua cama e começou a quebrar a casquinha do ovo. Foi aí que ouviu uma batida em sua porta. Era uma batida impaciente. Colocou o ovo em cima da cômoda e foi atender a porta, muito contrariado. Pensou: Quem será? Não fizera amizade com ninguém. _Uh! Tomou um susto ao abrir a porta e dar de cara com o rosto da nutricionista. Ela estendeu a mão e disse: _Eu quero os ovos!
_Que...? _ foi só o que saiu de sua boca. Não era justo_pensou.
Ela, porém não mudava a posição, olhava firmemente em seus olhos.
_Sei que o senhor pegou ovos de um ninho e eu os quero, agora! _falou com ligeira impaciência.
Ele foi até a cômoda, pegou o ovo quente e colocou em sua mão. Ela então, olhou para o ovo, voltou a olhá-lo, insinuou um sorriso e disse: _ Tem outro, eu sei!
Então, ele foi até o banheiro e voltou com o outro ovo ainda dentro do copo.
Ela pegou os ovos e foi-se, nem sequer virou para trás para saber como ele tinha ficado.
Foi nessa noite que ele resolveu fugir do SPA.
Poderia tentar sair numa boa, mas já sabia qual seria a resposta.
Senhor, o seu pacote é de três semanas, logo o senhor se acostuma, já combinamos com seus parentes de não deixá-lo ir embora antes das três semanas.
Ele não ia perder tempo tentando argumentar. Então, na hora do café, ficou de olho nas pessoas que estavam se despedindo. Uma delas devia ter um carro grande. Sim, alguns hóspedes iam de carro e os deixavam ali no estacionamento.
Quando as pessoas chegavam a sua mesa para se despedir, ele perguntava:
_Seu taxi já chegou?
Algumas pessoas respondiam que realmente iriam embora de taxi.
Outras respondiam que estavam com o carro no estacionamento. Era esse grupo que ele tinha interesse, agora teria de descobrir qual delas tinha um carro grande, claro que ele não iria pedir carona.
Foi assim que fez sua mala, desceu com ela, escondidinho e deixou no estacionamento, atrás de uma árvore. Sentou-se perto e ficou olhando as pessoas que iam colocando as coisas no carro aos poucos. Ele viu então, que uma senhora muito simpática, tinha um desses carros grandes, altos.
Espaçoso, com certeza, se ele deitasse atrás, ela nem sentiria a sua presença. Foi o que fez, viu que a senhora, estava colocando a bolsa no banco do passageiro e certamente já iria embora. Então ele falou:
_ Boa viagem! A senhora já pegou o cartão com as promoções dos meses de férias? São promoções maravilhosas! Ele sabia que mulher não podia ouvir falar em promoção.
-Cartões de promoção? Onde estão?_ perguntou a mulher ansiosa.
_Na recepção. É só dizer que quer vir nas férias que eles te darão o cartão, disse ele, fingindo distração.
A mulher foi, toda confiante, ele então pegou sua mala, colocou dentro do carro, e deitou-se no vão entre o banco da frente e o banco traseiro. Esperou ansioso, logo a mulher voltou, com um monte de papel nas mãos, ligou o carro e saiu do estacionamento. Dirigiu ainda algum tempo por uma estradinha de cascalho, se dirigindo a um e a outro com acenos. Parou em frente da piscina, acenou para suas amigas e dirigiu-se ao grande portão, vigiado por câmeras.
Logo o portão se abriu e ela continuou dirigindo, dirigindo, ligou o rádio, cantarolou, falou sozinha, disse que estava feliz por ter perdido cinco quilos, cantarolou de novo. Ele deitado, só conseguia ver o céu, as fiações, e quem passava pela janela do carro. Não tinha noção de onde estavam indo, a mulher dirigiu em alta velocidade por mais de uma hora, ele sentiu-se incomodado com as dores e as cãibras. Quando enfim resolveu levantar-se, viu que estavam em uma rodovia. Com um enorme esforço, levantou-se, o braço esquerdo estava adormecido porque ele estivera o tempo todo em cima dele, o corpo inteiro estava endurecido, meio duro, meio adormecido, suas pernas estavam inchadas e tinham cãibras por ter ficado tanto tempo dobradas. Quando a mulher viu aquele carão pelo retrovisor, gritou, perdeu a direção e foi parar num acostamento. Gritavam os dois, ela gritava com medo dele e ele com medo que ela batesse o carro. Felizmente o carro parou, sem nenhum incidente. Aí, passado susto, D. Mirtes reconheceu aquele rosto redondo. Aí então o Dagoberto começou a se explicar, então os dois caíram na risada. Ele passou para o banco do passageiro e seguiram viagem até a cidade mais próxima, onde tomou um ônibus para sua casa, passando antes na pizzaria da esquina e comendo uma pizza inteira de quatro queijos. Estava mais magro, é certo, tinha perdido uns oito quilos, sentia suas bermudas largas, na cintura e nas coxas. Já chegou em casa mostrando à esposa como a bermuda estava larga, o que não a comoveu, então fez um monte de promessas; comeria todas as verduras que estivessem na mesa, iria a uma churrascaria só uma vez por mês; pizzas, refrigerante e cerveja, somente nos finais de semana; queijo, só branco. Faria tudo o que ela quisesse, contanto que não fosse mandado de novo para o SPA.
Regina Gois

4 comentários:

  1. Nossa,
    Muito legal.É muito engraçado...
    Parabéns.
    cada vez se aprimorando mais.

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  2. Regina, que história deliciosa :)

    Saudades!!!
    bj

    OA.S

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  3. Ohhhhhhhhhh!!!Tortura danada!!!!Na parte da comilança me deu água na boca, nas partes tristes, do Spa eu senti me amargurado...Talinho da maçã!Que decadência!!!Uahahahahahaah!!!Divertido!

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  4. Legal!!!
    Que bom que vocês gostaram da história.
    Beijos

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