Quem sou eu





Crie glitters aqui!

"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

Cecília Meireles

quinta-feira, 31 de março de 2011

O QUE FAZER?


As pessoas se vão...
Como folhas secas ao vento.
Levam embora nosso chão,
e parte de nosso coração.
Para não sucumbir,
criamos a nossa própria prisão.
Deixamos a vida lá fora,
Juntamente com a emoção.
Olhamos e não vemos.
Ouvimos e não entendemos.
Não há nada para ver,
nem tão pouco para entender.
E o tempo vai passando...
Lá fora continua ventando.
Regina Gois

terça-feira, 22 de março de 2011

UM MALUCO NO SPA

Todos falavam da gordura exagerada do Dagoberto. Os médicos já estavam cansados de passar dietas e pedir que ele fizesse uma reeducação alimentar. A esposa ameaçava mandá-lo dormir definitivamente no sofá. Ele aparentemente não se importava, não era daquelas pessoas que ouvem o que os outros falam e ficam se martirizando. Ao contrário, continuava frequentando assiduamente as churrascarias, adorava aquela gordurinha crocante da picanha, refrigerante para ele tinha que ter duas garrafas, ou então cervejas bem geladas, que ele nunca conseguia lembrar quantas tinha bebido. Quando cansava dos churrascos, ia às cantinas italianas, adorava uma boa massa com bastante molho e queijo. E a sobremesa, então... adorava todas, principalmente pudim de leite condensado, mousse, petit gâteau, creme de papaia com cassis, sorvetes, tortas, etc. Quanto mais diziam que ele estava gordo, mais ele comia, e comia com gosto, comia com prazer. Não queria nem saber dos regimes impostos pelos médicos. A esposa fazia os pratos balanceados com bastante verduras, legumes, tudo direitinho, como mandava a dieta, mas acabava comendo tudo sozinha.
Ele dizia: _Quem é que vai comer isso? -apontava para a saladeira repleta de verduras.
_Querido, é alface, acelga e almeirão com tomate. -respondia a esposa calmamente.
_Eu é que não como, não sou coelho! - disse ele olhando para o prato com repulsa.
_Então vai ficar sem comer, só tem isso. - disse a mulher, tentando demonstrar indiferença.
_Ótimo! -afirmou ele indiferente, deu de ombros e levantou-se. _Não estou com fome mesmo! Vou dar uma volta. Foi à padaria da esquina, comeu vários sanduiches e se saciou.
Foi no final do ano passado que os parentes resolveram lhe dar um presente.
_Não quero! Isso é presente de grego - disse ele vermelho de raiva.
_Você vai sim! - ordenou a esposa decidida.
_Vocês querem que eu passe duas semanas em um SPA? Estão loucos? _perguntou ele, sacudindo a cabeça de um lado para o outro.
_É para o seu próprio bem - falou novamente a esposa, com brandura.
_Você quer o meu bem? Então faça uma bela macarronada com bastante molho e queijo. - respondeu ele irritado, gesticulando, com a fisionomia séria.
_Berto, meu bem, pense em seus filhos... você não consegue nem acompanhá-los em suas brincadeiras; correr com eles, jogar bola, empinar pipas, como os outros pais. Ela sabia que quando se tratava das crianças ele realmente ficava comovido, era louco pelos filhos, e realmente sentia muito não poder brincar com eles.
Tudo tinha sido planejado antecipadamente. Fizeram um pacote de três semanas em um SPA, no interior de São Paulo. A esposa levou os exames para serem avaliados, e explicou para o médico o quanto ele era resistente a mudanças. E alertou que, se ele aceitasse passar um tempo no SPA, com certeza ele levaria comida escondida.
Só faltava mesmo era convencer o Bertão – era assim que os amigos lhe chamavam - a se hospedar em suas férias de Janeiro.
Depois de muita discussão ele aceitou o presente e partiu, mesmo a contra gosto. É claro, no dia anterior fez um churrasco regado a muita cerveja em sua casa para se despedir dos amigos. Parecia que faria uma longa viagem para outro continente, tamanha era a sua tristeza.
Ele chegou ao SPA bem cedo, numa manhã quente, nem parecia que tinha chovido na noite anterior. Passou pelo grande portão automático e foi introduzido à sala de espera para ter sua primeira entrevista com a nutricionista. Lá estava ele: sozinho, mala ao lado da cadeira, olhos verdes grandes e inquietos, mãos trêmulas, seu rosto redondo e vermelho, suando. A todo momento ele secava-se com uma pequena toalha.
Depois de alguns minutos apareceu a nutricionista, uma jovem senhora de olhar firme e postura altiva.
_Bom Dia, Sr. Dagoberto, vamos entrar. -chamou a nutricionista da porta de sua sala.
_Sente-se, por favor. -apontou uma cadeira que estava em frente a uma grande mesa de vidro transparente.
Logo que ele se acomodou, ela começou a falar, de maneira muito educada, esboçando de vez em quando um sorriso, dos benefícios de uma alimentação adequada, e principalmente da proibição de consumo de alimentos que não fossem do SPA.
Foi então que ela se levantou de onde estava sentada e disse:
_O Senhor certamente tem bagagem, não tem?
_Sim, está aqui. –ele apontou para a mala ao lado da cadeira.
_O Senhor poderia abri-la, por favor?
_Como assim, abrir minha mala? _perguntou ele meio confuso. Em momento algum ele imaginou que isso aconteceria.
_Só gostaria de assegurar-me de que o senhor, não trouxe nenhum alimento. São normas do SPA, lembre-se. “Nada de alimentos de fora”. -disse ela com as sobrancelhas ligeiramente arqueadas e olhando firme para Bertão. Então ela começou a andar pela sala e falar: ­_ ­­­Pode não ser o seu caso, mas alguns pacientes vêm se hospedar com as malas recheadas, não só de roupas. _Coloque sua mala ali! - ela apontou para um balcão de madeira nos fundos da sala.
Ele tentou erguer a mala, mas de repente ela parecia tão pesada! Deu uma moleza nos braços, suas mãos não obedeciam ao seu comando. Ele ajeitou os cabelos, secou novamente o rosto. Somente depois de algum tempo, ele se recompôs, e meio relutante, colocou a mala sobre o balcão e ficou imóvel a observá-la.
_Abra a mala, por favor! _ ordenou a mulher, com um olhar de desafio.
_Não tem nada de comida aqui dentro!_afirmou ele, olhando firmemente para a mala.
_É exatamente o que todos dizem. _respondeu ela com segurança. _Nesses anos de trabalho, o senhor nem imagina o que eu tenho visto! Teve uma distinta senhora que veio pra cá, por conta própria, queria, porque queria perder uns quilos para desfilar em uma escola de samba. Sabe o que encontramos em sua bagagem...? "Um bolo de chocolate recheado!" Tente imaginar, senhor Dagoberto...! _Nossa!!! Não dá nem para imaginar uma cena dessa._disse Bertão, arregalando os olhos. _Teve outro caso bem interessante; o de um jogador de futebol que precisava perder muito peso. Encontramos em sua mala um pote plástico grande, cheio de frango assado com farofa. Bertão, não dizia nada, apenas meneava a cabeça e secava o suor que insistia em escorrer pelo seu rosto. _Agora o senhor me entende? –ela dizia essas coisas gesticulando, como se quisesse demonstrar exatamente como tudo aconteceu. _Pedimos para os nossos pacientes que abram as malas, para que o nosso programa tenha sucesso.
Ele começou a tirar as peças da mala, suas mãos tremiam, o suor escorria do rosto para o largo pescoço. Cada peça que tirava descobria uma barra de chocolate, um pacote de biscoito recheado, tirava outra peça e então caia um pacotinho de bolinho, ou então de salgadinho, caixinhas de achocolatados, amendoins, latinhas de cerveja e assim foi até que a mala estivesse totalmente vazia; roupas mesmo, havia poucas.
Depois de tudo confiscado, ele foi conduzido ao quarto, com a cara amarrada. Na cabeça tinha apenas um pensamento. “Mulher miserável! Não me deixou nem com as balinhas de goma”.
Pelo menos ela lhe deu uma esperança, comeria a cada três horas. Pelo menos isso! Pensou ele. ­­Não teria tempo de sentir fome.
Desde o raiar do dia ele já estava rondando o refeitório. Às sete, quando as portas do refeitório se abriram para o café, ele foi o primeiro a entrar. Bem próximo à porta, ficava uma mesinha redonda, com umas jarras de vidro. Dentro, havia líquidos coloridos. Pensou: “ Se está aqui, é para beber!" No dia anterior ele não havia tomado o café da manhã, tinha feito somente as outras refeições, e achou que no segundo dia as coisas seriam diferentes.
"Deve ser suco!" Pegou um copo, tinha vontade mesmo era de virar a jarra, mas ia se contentar com o copo. Encheu até a boca e - glup! Engoliu tudo de uma só vez.
_Eca!!! Que coisa horrorosa. _gritou ele, com a língua para fora fazendo uma careta_ O que é isso? -perguntou ele, enquanto segurava a garganta, fazendo cara de nojo.
_É suco de couve com gengibre, pode por adoçante se preferir. -respondeu uma moça que arrumava as mesas.
Ele olhou a outra jarra com certa desconfiança, tinha um liquido de tonalidade mais escura. Ele pensou: Pode ser suco de chocolate! Não quis arriscar. _E esse, de que é?_ perguntou, apontando a jarra.
_Esse é de ameixa com farelo de trigo. _respondeu a moça sorridente.
_E essa outra transparente, com umas casquinhas no fundo, o que é?
_Ah! É água com casquinhas de limão._ respondeu a moça sempre sorridente.
“Quem é que bebe isso?” resmungou ele, dirigindo-se a uma das mesas, meneando a cabeça.
Logo os hóspedes começaram a chegar, em sua maioria mulheres, de várias idades, e não eram todas gordas. Umas não tinham nada de gordura em seus corpos. O refeitório estava bem iluminado pela luz do dia. Então ele pensou: Preciso fazer amizade logo, num lugar desses a gente tem de se unir para aprender os truques e sobreviver. E é claro, se alguém deixar alguma coisa no prato, o outro come.
O café chegou, era apenas meio pãozinho com meia fatia de peito de peru e uma xícara média de café com leite. Dagoberto devorou tudo em duas mordidas, e continuou com fome.
Ele queria mesmo era a garrafa de café inteirinha em sua mesa, dois pães na chapa, um bom pedaço de bolo, queijo amarelo, ovos mexidos, e muito leite. Ele adorava leite quente.
Mesmo sabendo a resposta, ele perguntou: _É possível repetir, moça?
A moça sorridente falou: _O senhor pode complementar a refeição somente com os sucos das jarras. -apontou para as jarras da mesinha da entrada.
Ele olhou para a mesinha da entrada, e não acreditou no que viu: Em volta da mesinha tinha umas pessoas enchendo seus copos e bebericando, como se estivessem tomando uma deliciosa laranjada. Bertão, meneou a cabeça e pensou: Tem gosto para tudo!
No almoço vinha uma pequena porção de arroz, do tamanho de um copinho plástico, desses que se coloca gelatina, tinha até o formato do copo, uma colher de legumes, um pequeno pedaço de peixe grelhado; tudo muito bonito, enfeitado com a casca de um limão, em forma de molinha, um pratinho com duas folhas de alface e duas rodelas de tomate, de sobremesa, veio um minúsculo cacho de uva, dava até para contar, tinha apenas meia dúzia de uvinhas.
Ele comeu tudo! Tudo mesmo, a casca do limão em forma de mola, as uvas e todos os talinhos da uva, não sobrou absolutamente nada em seu prato. Porém, a fome não dava trégua. Não conseguia se satisfazer com a pequena quantidade de comida que recebia.
Durante o almoço a nutricionista andava pelo refeitório, sentava hora com um, hora com outro, conversava e logo se levantava, até que chegou a vez de Bertão.
_O Senhor precisa comer bem devagar, mastigar bem os alimentos, dividi-los em pequenas porções, entendeu? Coloque sempre pouca comida na boca, para enganar o cérebro. _dizia ela fazendo gestos, como se estivesse levando a comida a boca e mastigando. _ E não coma os enfeites do prato! Por falar em enfeite, cadê o galho da uva?
_Galho da uva...? _ perguntou ele meio confuso. _Ora, ora! Cadê o talinho da uva? As uvas vieram em um cachinho, ou as suas vieram soltas? -perguntava insistentemente a mulher, num tom de voz debochado.
Ele não respondeu, não sentia nenhuma vontade de falar.
Ela então levantou-se e disse: _Deixa prá lá.
No lanche geralmente davam uma minúscula maçã, do tamanho de uma ameixa, todas tinham o mesmo tamanho. Não adiantava escolher, a única diferença era que algumas vinham com talinho, somente os sortudos conseguiam uma com talo, ele ainda não tivera essa sorte. As senhoras com quem ele fez amizade, garantiram que o talinho era simplesmente delicioso.
O ambiente do SPA era muito acolhedor, ficava em um enorme terreno plano, dentro de seus portões havia um lindo gramado, que ia da entrada até os apartamentos, descia até as salas de jogos e contornava as piscinas. Era interrompido apenas pela pista de cooper e por alguns quiosques onde tinha cadeiras e redes. A pista de cooper contornava todo o espaço inclusive os fundos dos apartamentos, donde havia um pequeno pomar, com pés de jabuticaba, acerola e carambola.
Dagoberto, gostava de ficar sentado, olhando para a quadra de basquete, onde alguns hóspedes jogavam. Gostava também de olhar os pássaros e as galinhas que ciscavam soltas pelo gramado. As galinhas gordas desfilavam na frente de seus olhos. Ele as olhava com gula, imaginava-as assadas, ensopadas com batatas, fritas e empanadas. Foi aí que teve uma ideia: "Onde tem galinhas tem ovos!" Pronto, agora ele teria um objetivo; caçar os ninhos.
Enquanto andava caçando ninhos, ele ouviu duas senhoras conversando, em volta de uma pequena roseira. Ele olhava intrigado, pois elas conversavam e mastigavam sem parar. Foi então que ele viu que elas disfarçadamente tiravam as pétalas das rosas e enfiavam na boca, como se fossem salgadinhos. A mais idosa dizia a outra que havia visto carambolas maduras no pé, durante a caminhada da manhã. Ele então se animou, não gostava de carambolas, mas com a fome que estava qualquer coisa seria bem vinda. Saiu de fininho, olhando em volta para verificar se estava sozinho. Contornou a pista de cooper, dirigiu-se ao pomar, encontrou enfim os pés de carambola. Olhou, mexeu nas folhagens, haviam muitas folhas amarelas, mas carambolas, somente verdes. Olhou para o chão, lá estavam elas, algumas carambolas amarelinhas, suculentas, dava para ver entre as folhagens, ele imediatamente se abaixou e pegou uma. Estava amassada, cheia de pontinhos pretos, com umas lagartinhas se mexendo dentro._ Que droga! _gritou indignado.
Pegou outra, e mais outra, todas no mesmo estado. Pensou: As maduras estão podres, cheias de bichos. Aquela velha não sabe distinguir folhas amarelas de fruto. Levantou-se, olhou novamente para os lados, estava sozinho. Meteu as mãos no meio das folhagens, pegou algumas carambolas verdes, colocou-as nos bolsos de sua bermuda e se dirigiu ofegante para o quarto.
O quarto ficava no segundo andar. Não tinha elevador, subir as escadas era mais um exercício, ele subiu cada degrau o mais depressa possível, chegou ao quarto sem fôlego, mas contente. Enfiou a mão nos bolsos e tirou os frutos e foi colocando em cima da cama um a um, parecia um menino enfileirando seus carrinhos. Não se conteve, foi ao lavatório do banheiro e lavou as carambolas. Sentou-se na cama em total silêncio e comeu todas de uma só vez; eram azedinhas, durinhas, mas estavam deliciosas. Sempre depois do almoço ele dava uma disfarçada, sentava-se nas cadeiras do jardim, fingia ler um livro, e quando não tinha ninguém por perto, ia catar carambolas verdes, até o dia em que não aquentou mais, tudo nele estava azedinho. Enjoou das carambolas, não queria vê-las nem pintadas de ouro.
Voltou para sua busca solitária, pensando: “No meio daquele monte de mato, tinha que ter um ninho, só unzinho.”
Foi durante uma caminhada matinal. Lá estava ele, suando em bicas, cara vermelha, sem fôlego, mas quando viu uma galinha agachada em um canto, só podia ser um ninho, teve um novo ânimo, arregalou os olhos, o cansaço de repente sumiu. Ele então, distanciou-se mais do grupo de caminhada, fingiu amarrar o tênis; quando viu que tinha ficado para trás e que ninguém lhe observava, saiu da trilha e foi atrás do ninho. Para sua sorte, havia dois ovos de tamanho médio. Sua boca encheu-se de água. Estava há mais de uma semana sem sentir o gosto de um ovinho. Enfiou os ovos com delicadeza nos bolsos da bermuda e interrompeu a caminhada sem nenhum remorso. Voltou para o quarto e pensou que precisava arrumar um jeito de fazer aqueles ovos, não iria comê-los cru, isso não, não gostava de ovos crus. Ovos quentes são deliciosos! O que fazer, para esquentar os ovos? Foi então que teve uma ideia, pegou um copinho plástico, desses usados para beber água, foi até o banheiro, ligou o chuveiro e deixou cair água quente dentro do copo. Pensou: Se pelo menos tivesse uma banheira seria mais fácil. Durante alguns minutos, ele dedicou-se a este trabalho, colocar água quente, esperar esfriar um pouco, jogar fora e colocar outra água quente. Depois de algum tempo colocou o ovo na mão, realmente estava bem quentinho. Pensou: Ah! Que delícia! Sentou-se em sua cama e começou a quebrar a casquinha do ovo. Foi aí que ouviu uma batida em sua porta. Era uma batida impaciente. Colocou o ovo em cima da cômoda e foi atender a porta, muito contrariado. Pensou: Quem será? Não fizera amizade com ninguém. _Uh! Tomou um susto ao abrir a porta e dar de cara com o rosto da nutricionista. Ela estendeu a mão e disse: _Eu quero os ovos!
_Que...? _ foi só o que saiu de sua boca. Não era justo_pensou.
Ela, porém não mudava a posição, olhava firmemente em seus olhos.
_Sei que o senhor pegou ovos de um ninho e eu os quero, agora! _falou com ligeira impaciência.
Ele foi até a cômoda, pegou o ovo quente e colocou em sua mão. Ela então, olhou para o ovo, voltou a olhá-lo, insinuou um sorriso e disse: _ Tem outro, eu sei!
Então, ele foi até o banheiro e voltou com o outro ovo ainda dentro do copo.
Ela pegou os ovos e foi-se, nem sequer virou para trás para saber como ele tinha ficado.
Foi nessa noite que ele resolveu fugir do SPA.
Poderia tentar sair numa boa, mas já sabia qual seria a resposta.
Senhor, o seu pacote é de três semanas, logo o senhor se acostuma, já combinamos com seus parentes de não deixá-lo ir embora antes das três semanas.
Ele não ia perder tempo tentando argumentar. Então, na hora do café, ficou de olho nas pessoas que estavam se despedindo. Uma delas devia ter um carro grande. Sim, alguns hóspedes iam de carro e os deixavam ali no estacionamento.
Quando as pessoas chegavam a sua mesa para se despedir, ele perguntava:
_Seu taxi já chegou?
Algumas pessoas respondiam que realmente iriam embora de taxi.
Outras respondiam que estavam com o carro no estacionamento. Era esse grupo que ele tinha interesse, agora teria de descobrir qual delas tinha um carro grande, claro que ele não iria pedir carona.
Foi assim que fez sua mala, desceu com ela, escondidinho e deixou no estacionamento, atrás de uma árvore. Sentou-se perto e ficou olhando as pessoas que iam colocando as coisas no carro aos poucos. Ele viu então, que uma senhora muito simpática, tinha um desses carros grandes, altos.
Espaçoso, com certeza, se ele deitasse atrás, ela nem sentiria a sua presença. Foi o que fez, viu que a senhora, estava colocando a bolsa no banco do passageiro e certamente já iria embora. Então ele falou:
_ Boa viagem! A senhora já pegou o cartão com as promoções dos meses de férias? São promoções maravilhosas! Ele sabia que mulher não podia ouvir falar em promoção.
-Cartões de promoção? Onde estão?_ perguntou a mulher ansiosa.
_Na recepção. É só dizer que quer vir nas férias que eles te darão o cartão, disse ele, fingindo distração.
A mulher foi, toda confiante, ele então pegou sua mala, colocou dentro do carro, e deitou-se no vão entre o banco da frente e o banco traseiro. Esperou ansioso, logo a mulher voltou, com um monte de papel nas mãos, ligou o carro e saiu do estacionamento. Dirigiu ainda algum tempo por uma estradinha de cascalho, se dirigindo a um e a outro com acenos. Parou em frente da piscina, acenou para suas amigas e dirigiu-se ao grande portão, vigiado por câmeras.
Logo o portão se abriu e ela continuou dirigindo, dirigindo, ligou o rádio, cantarolou, falou sozinha, disse que estava feliz por ter perdido cinco quilos, cantarolou de novo. Ele deitado, só conseguia ver o céu, as fiações, e quem passava pela janela do carro. Não tinha noção de onde estavam indo, a mulher dirigiu em alta velocidade por mais de uma hora, ele sentiu-se incomodado com as dores e as cãibras. Quando enfim resolveu levantar-se, viu que estavam em uma rodovia. Com um enorme esforço, levantou-se, o braço esquerdo estava adormecido porque ele estivera o tempo todo em cima dele, o corpo inteiro estava endurecido, meio duro, meio adormecido, suas pernas estavam inchadas e tinham cãibras por ter ficado tanto tempo dobradas. Quando a mulher viu aquele carão pelo retrovisor, gritou, perdeu a direção e foi parar num acostamento. Gritavam os dois, ela gritava com medo dele e ele com medo que ela batesse o carro. Felizmente o carro parou, sem nenhum incidente. Aí, passado susto, D. Mirtes reconheceu aquele rosto redondo. Aí então o Dagoberto começou a se explicar, então os dois caíram na risada. Ele passou para o banco do passageiro e seguiram viagem até a cidade mais próxima, onde tomou um ônibus para sua casa, passando antes na pizzaria da esquina e comendo uma pizza inteira de quatro queijos. Estava mais magro, é certo, tinha perdido uns oito quilos, sentia suas bermudas largas, na cintura e nas coxas. Já chegou em casa mostrando à esposa como a bermuda estava larga, o que não a comoveu, então fez um monte de promessas; comeria todas as verduras que estivessem na mesa, iria a uma churrascaria só uma vez por mês; pizzas, refrigerante e cerveja, somente nos finais de semana; queijo, só branco. Faria tudo o que ela quisesse, contanto que não fosse mandado de novo para o SPA.
Regina Gois

domingo, 13 de março de 2011

ASAS AMARELAS





ASAS AMARELAS
                                                  
Apareceram lá em casa
lindas borboletas amarelas,
uma pousou em minha mão
quando abri a janela.

Batiam delicadamente
suas lindas asas amarelas,
pairavam sobre as flores,
e beijavam as brancas camélias,
criando uma formosa aquarela.

Somente hoje, ao esquecer minhas dores,
voltei a observar de novo as flores.
Pude notar então,
as borboletas amarelas,
todas tão singelas.

Lembrei-me que, de todas as cores,
a tua preferida era a amarela.
com ela ficavas mais bela.
Tudo teu sempre tinha alguma coisa amarela.

Quando bateste tuas asas,
levaste por um tempo minha serenidade,
a natureza então, me recompensou;
trazendo essas lindas asas amarelas.

Penso que és tu a voar por aí,
procurando como todo mundo,
se encontrar em algum lugar.




sábado, 5 de março de 2011

NÃO SEI

Não sei... se a vida é curta... Não sei... Não sei...
se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura... enquanto durar.
CORA CORALINA

quarta-feira, 2 de março de 2011

Recebi estes selos do blog OceanoAzul.Sonhos

 



Agora as regras:


No caso do selo de qualidade deve enumerar dez coisas sobre você e posteriormente indicar dez blogs a quem deseja indicá-lo.

1- Conte um sonho que você tem.  Sonho com um mundo mais justo, com menos desigualdades sociais.

2 - Uma frase que lhe veio na cabeça. "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Por que se você parar pra pensar, na verdade não há...”
Música: Pais E Filhos - Legião Urbana
Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá

3 - Seu maior medo.  Não ter liberdade.

4 - Um livro que você leu e ficou sonhando.  (As Pontes de Madison) Robert James Waller

5 - Seu melhor amigo. (São poucos, mas especiais).

6 - Uma música que o faz sonhar.  (Na Rua, na Chuva, na Fazenda) Hyldon

7- Um amuleto. Especificar. (Não tenho)

8- Um sonho que você teve e ficou com medo  -Não me recordo

    9- Blogs que recomendo:
     OceanoAzul.Sonhos, Artes e Sonhos, Meus Poemas...minha vida, Poesias, Cartas de Amor e...,  Nosso Sarau, Rota Literária, 
 É comigo???, Arteveraartesanatoecia, blogcronicando, rosanacappi24x7, casadopoetacampinas. www.literaturaeartedecampinas.blogspot.com



Recebi este selo do Blog
OceanoAzul.Sonhos

terça-feira, 1 de março de 2011

ANJO

ANJO

Há momentos em que a dor é tão intensa
Que não temos forças nem para rezar.
A cabeça fica confusa, imensa
Querendo sair do seu lugar.

De mãos atadas, só nos resta gritar,
Para não sufocar e despencar.
Não há nada que possa nos consolar.
Perde-se a fé e não se sabe mais o que esperar.

Então, Deus em sua infinita bondade
Põe um anjo em nosso caminho.
Com uma voz cheia de docilidade
E serenidade no olhar.

Tão nova e cheia de sabedoria,
Pede para a gente se acalmar.
Traz notícias que faz nossa alma serenar.
Logo nossa alma se aquieta.

Voltamos a ter fé e paramos de chorar.
Agora sabemos que não estamos sozinhos,
Sabemos que Deus sempre mandará um anjo
Para nos amparar.

De Regina Gois
Para um Anjo chamado “Val”
Que vive no meio da gente disfarçada de moça.  
Obrigada por tudo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A CASA DA VOVÓ PRETINHA

A CASA DA VOVÓ PRETINHA

Eu sonhava com o final de semana, porque sabia que era o dia de ir para a casa da vovó. Lá sempre tinha um delicioso cheirinho adocicado de maçã com canela e tortas. Tudo era permitido: andar descalço, tomar banho frio de mangueira, correr pelo gramado, fazer bolinhos de barro e o melhor de tudo; jogar bola na rua com a molecada.

Ela vivia em uma casa pequenina, toda azul com janelas brancas, era a última casa de uma rua muito arborizada, com vários pés de ipês roxos; onde as casa eram separadas uma das outras por pequenas cercas. Tinha um grande gramado na frente bem verdinho e vários tuchos de Hortência em volta da cerca branca. A rua era bem estreita, não tinha asfalto ainda, era de barro batido e pedrinhas redondas, de um lado tinha as casinhas e do outro, muita vegetação que chamávamos de Chácara dos Padres, mas na verdade era uma fazenda de pesquisa do governo.

Quando o carro parava na frente do portão de sua casa, ela já estava nos esperando, como se adivinhasse o exato momento da nossa chegada. Sorria-nos com todo o corpo. Seus lábios grossos estavam sempre risonhos e quando sorria seus olhos grandes e pretos se fechavam... Eu achava muito lindo. Tinha os cabelos bem branquinhos como flocos de algodão, contrastavam com a sua pele bem escura. Vestia sempre um avental florido, porque estava constantemente cuidando de seus canteiros. Ela olhava-me sorrindo, estendia os braços compridos e acolhedores, eu corria e me jogava em seu colo macio, onde era recebido com muito carinho. Sentia o cheiro de seus cabelos, de seu rosto e de sua pele. Eu deitava e minha cabeça em seu ombro e apertava com toda a minha força, nada nem ninguém e tirava dali. Era um momento só nosso.

A mesa do lanche da tarde estava pronta, ela colocava os sucos, o pão quentinho o bolo de fubá com goiabada e o pão de queijo que era o meu preferido. Na casa da minha vovó não tinha refrigerantes, mas tinha cada suco! Na geladeira tinha umas garrafas coloridas com vários tipos de sucos. Eu me deliciava com todos aqueles sabores, um dia cheguei a tomar tanto, que até fiquei com dor de barriga. Lá sempre tinha biscoitos, bolos e doces, ela fazia cada bolo! A casa inteira ficava cheirando a tortas, que delícia! Eu já era meio gordinho, e no final de semana com certeza meu peso aumentava mais.

-Que cheiro bom! Eu dizia com o meu olhar de guloso.

Meu quarto que fora do meu pai, estava sempre arrumado e cheiroso. Meus amigos tinham mais ou menos a minha idade, viviam correndo de calção pelas ruas, atrás das pipas e dos cachorros, logo que meus pais partiam, eu tirava o tênis, aí sim eu também era um menino de rua.

Minha avó era uma professora aposentada que adorava crianças, por isso sua casa estava sempre cheia, toda tarde ela fazia a mesa do café e todos que a conheciam sabiam que era à hora de se deliciar com suas tortas, bolos, geléias , compotas e sucos. Nós comíamos, ríamos, brincávamos, éramos felizes. Regina Gois

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

CONTOS DE OUTONO E SELETA DE CRÔNICAS

Olá pessoal!
Tenho novidades:
A crônica Conversa entre Amigas e o conto a Casa da Vovó Pretinha, foram selecionados por uma Editora e serão publicados, em dois livros. Nome dos livros: Antologia "Contos de Outono" e "Seleta de Crônicas"
Lançamento: 15 de Abril de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

IRMÃS DO CORAÇÃO

IRMÃS DO CORAÇÃO
Di Cavalcanti (Mulheres e Frutas)

Obrigada!

Pelo ombro,
pela afeição,
por ser minha aliada
nessa jornada.

Pelos braços abertos,
pelo abraço,
pela oração,
por me dar atenção,
quando estou tão
despedaçada.

Pela compreensão,
por me dar a mão,
pelo pão repartido,
quando eu achava
que tudo estava perdido.

Obrigada por se doar,
por esse olhar tão afável,
por me fazer acreditar,
e por tornar a minha vida
suportável.

REGINA GOIS

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Csontváry  kosztka (Cedrus Maganyos)

"Aqui tudo dá ao pensamento asas, movimentos e dimensões atmosféricas! [...] as nuvens no alto, a imensidade da atmosfera infinita! Na terra estamos atados a um ponto morto e encerrados no círculo estreito de uma situação... Alma minha, como te encontrarás quando saíres deste mundo?"
Herder

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

LEMBRANÇAS (poesia)



Lembranças

Em minha mente,
Guardo doces lembranças,
De um lindo e longo verão.
Onde os olhares eram mais intensos,
Com muito mais esplendor.
Os botões das rosas se abriam,
Livremente sem nenhum pudor.
Encantando os arredores com aromas
E uma infinidade de cores.

Deixava o calor do seu sorriso me aquecer.
Não corria tanto,
Sentia pela primeira vez, um imenso
prazer em apenas viver.

Caminhava lentamente,
apreciando a plenitude
de cada entardecer.
E me deixando envolver
pela ternura do anoitecer.
Tendo toda a liberdade de sonhar,
mesmo que fosse só por sonhar.

Ansiava apenas pelas manhãs,
onde teria novamente teu ombro
Amigo, para me acolher.
Era simplesmente contente
e agradecida.
Por estar ali, conviver e aprender.


Regina Gois

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ADOLESCÊNCIA (poesia)



ADOLESCÊNCIA
Sorridente você nasceu.
Chamava-me apenas com o olhar.
Beijava-me calmamente ao se deitar.
Eu sempre corria para te acalentar.

Silenciosamente você cresceu.
De repente não quer mais conversar.
Não sei onde você se perdeu...
Não me deixa mais te abraçar.

Enquanto você diz coisas sem pensar,
Eu serenamente me ponho a rezar,
Para entender o que te aconteceu,
E para você voltar a me amar.

Regina Gois

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

VIDA MODERNA (crônica)

Das Dores chega em casa e encontra o marido novamente estirado no sofá.
Pensa: “A preguiça é uma desgraça!”
- Você continua dormindo, homem? _ela pergunta indignada.
-Não, você acabou de me acordar. _ele responde irritado. _Estava até sonhando, mas você como sempre chegou para me atrapalhar.
A pobre acordava todos os dias com o cantar dos galos. Trabalhava em dois
empregos para conseguir sustentar a casa.
E ao retornava para casa, era sempre a mesma coisa. Tudo de pernas para o ar. Até a cama ainda estava por fazer. As louças se acumulavam em cima da pia e ela tinha que dar conta da arrumação, da limpeza e do jantar, enquanto, Marcão, ficava sentado no sofá vendo televisão e reclamando de fome.
-Minha mãe estava me perguntando se você já tinha arrumado emprego!
-O que ela tem a ver com e minha vida? Velha enxerida. Cruzes! Eu não devo nada a ninguém e sempre tem gente querendo cuidar da minha vida. Que saco!
-Ela se preocupa comigo, acha que eu trabalho demais enquanto você fica sem fazer nada o dia inteiro.
-Eu também já disse que você trabalha demais e nunca tem tempo para ficar comigo vendo TV, comendo e dormindo. Isso mina qualquer relação viu?
-Se eu ficar em casa quem vai trazer dinheiro para pagar as contas?
-É só não fazer contas, veja o meu caso; não trabalho e também não tenho contas.
-Como não tem contas homem? Para de falar bobagem!
-O trabalho acaba com o homem, isso é certo! O trabalho mata. Veja o caso do meu avô e do meu pai.
-O que tinha o seu avô? Ele viveu ate os 86 anos.
-Teria vivido mais se não trabalhasse.
-E seu pai ainda esta vivo ou morreu...? Não acredito que morreu, e você teve preguiça de me avisar?
-Virá essa boca pra lá! Ele ainda está vivo, mas tá morre não morre, com um pé na cova e o outro também, não reconhece mais ninguém, culpa do trabalho que destruiu o cérebro dele. Eu é que não caio nessa, quero chegar aos meus cento e trá-lá-lá, assim novinho saudável, sem nenhuma ruga.
-Enquanto isso eu é que vou te alimentar e te vestir não é?
-É uma escolha sua querida, você gosta de trabalhar. Eu gosto de ficar aqui descansando e esperando você chegar.
-Esse papo não leva a nada. Veja se levanta daí e vem me ajudar!
_Não posso! Minhas costas estão doendo...
_Então me deixa terminar o serviço. Boa noite!
_Boa noite benzinho! Amanhã, antes de sair para trabalhar não se esqueça de deixar uns trocadinhos para o meu cigarro. Regina Gois

sábado, 12 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

INSÔNIA (poesia)


A noite turva canta uma canção.
Só consegue ouvir  quem
Não tem medo da solidão.

Aqui, o sono foge de repente,
sem pedir permissão.
Não me importo; essa quietude
faz bem e alivia a tensão.

Olho para o céu escuro,
Com profunda admiração.
Minha diversão é olhar as estrelas,
Minhas companheiras de solidão.

Elas dizem que terei a paz que procuro,
Que jamais, devo temer a escuridão.
E que irão me acalentar, enquanto
O Sol não chegar.

É tudo magia e calmaria.
Deixo-me levar pela nostalgia.
Deito-me no gramado úmido.
Sinto a brisa fresca me acariciar.

Estou segura, vazia.
Não penso em nada.
Não desejo nada,
Nem mesmo o raiar do Dia.
Regina Gois